LAURINDO.
Ácis morto! Que dizes, Galatéa? Isso he certo, ou te engana a falsa idéa?
GALATÉA.
Eu te exponho a razão, em que me fundo. Quem vio (oh Deoses) scena igual no Mundo Ácis partio: passárão-se dois dias, Dias de magoas, noites de agonias, Em cada instante, que elle me tardava, Mil desgraças a idéa me pintava. Porém hoje no valle d'azinheira, Junto á ponte da plácida ribeira, Debaixo de hum cipreste levantado, Cópia de mim, eu vigiava o gado; Se bem que pouco vigiar podia, Quem de chorar já quasi nada via. Cançada de lutar com meu tormento, Meu unico, amargoso mantimento, A affligida cabeça ao tronco encosto, E sobre a curva mão inclino o rosto. O somno, que ha dois dias meu não era, Veio piedoso, que antes não viera! Pois me fez ver em sonho... Oh que desgraça! A causa desta dor, que me traspassa. Eu vi... triste visão! Que além da serra, Por hum dos regos da lavrada terra, Hia o meu Ácis triste, suspirando Com prompta vista a minha rez buscando; Outras vezes, olhando para a Aldêa, Clama saudoso: "Ah minha Galatéa! Quando de entre hum pinhal... de o dizer, tremo: Sahe o barbaro, o manstro Polyfemo. Toma-lhe o passo, e n'hum trilhado estreito Com dardo agudo lhe traspassa o peito: Clamando: "Morre, vil, morre, inimigo, "Que inda mereces mais cruel castigo. "Chama agora o teu bem, chama a fingida, "Grita por ella, que te torne a vida. Á violencia do golpe, o desgraçado Solta do peito afflicto hum ai magoado Trémulo, curvo, com a mão convulsa O peito aperta, donde o sangue pulsa: Quer suster-se, não póde, a força falta: A mão solta do peito, o sangue salta: Vai vergando, e cahindo: hum tronco agarra: Este se quebra, o fraco pé lhe esbarra; E sobre hum mar de sangue da ferida Cahe exhalando a preciosa vida. Com vista incerta, os olhos vidracentos, Trémula a voz, sem côr, já sem alentos, Exclama, em fim, nas mãos da morte feia: "Valei-me, Ceos, adeos ó Galatéa. E soltando hum suspiro, os olhos serra: Ferindo as plantas, magoando a terra. Oh Deoses! Inda incerta esta desgraça; He qual farpão, que o peito me traspassa; E se he certa, mandai, que a dura morte Sobre mim venha, e descarregue o corte: Morreo Ácis por mim, por elle eu morra: Qual do seu, do meu peito o sangue corra:
LAURINDO.
Misera Galatéa enchuga o pranto, Que hum sonho falso não provoca a tanto.
GALATÉA.
Este sonho, a demora, e Polyfemo, Tudo me assusta, e a desgraça temo.
LAURINDO.
O sonho intimidar-me não devia Por ser falsa illusão da fantasia. Do Pastor a demora, que te assusta, Tambem póde nascer de causa justa. Se temes Polyfemo, o susto affasta: Comigo vive, eu nunca o deixo, e basta. E desde que o domei por teu respeito, Tudo que eu mando, que elle faça, he feito. Piza, piza, a teus pés essa agonia: Faze, que a fonte com teu riso ria.