Pensas bem que a mulher de honesto estado, Se dá seu coração, sempre he rogado; Se bem que o rogo algumas não convence; Mas a feia ambição a muitas vence.

POLYFEMO.

Sim? Pois hoje verás, que a minha ira Só contra aquelle infame se conspira: Elle, por me arrancar de amor a palma, Me roubou a doce alma da minha alma, Vista dos olhos meus, bem como estrella, Que luz me dava, para poder vêlla. Clara luz, doce vida, alma preciosa, Tudo perdi. Oh scena lastimosa! Tudo o vil me roubou; porém protesto Fazer o seu castigo manifesto Ao Ceo, á terra, a todos os viventes: Elle me offende, as culpas são patentes; Pois o proprio delicto he, que o condemna, A que segundo a culpa, sinta a pena.

LAURINDO.

Queres que a morte de Ácis justifique Huma céga paixão, hum vil despique?

POLYFEMO.

Quero, porque da injúria se não gave, Que o proprio sangue a sua culpa lave: E se neste lugar já o apanhára, O coração do peito lhe arrancára.

LAURINDO.

Dize: se a Galatéa perdoaste, Depois que a culpa enorme lhe provaste, O Pastor, que he talvez menos culpado, Porque não he, como ella, perdoado?

POLYFEMO.