Nada responderei por defender-me, Pois por sábio chegaste a convencer-me: Se a paixão me cubrio de escuridade, Tu me mostraste as luzes da verdade: Agora já conheço, que essa ímpia Mais féra, que o dragão, que o monte cria, Nem amor, nem piedade já merece, Pois por outro me deixa; e assim se esquece Da fé, que me jurou, e da lealdade, Com que sempre a tratei; que a falsidade Não podia caber n'hum peito amante, Que ainda offendido mostra ser constante. Eu, que até ás Pastoras, quando as via, Nem ainda, o Ceo vos guarde, lhes dizia: E se acaso de longe as avistava, Por lhes fugir, a estrada rodeava. Tudo isto por fineza áquella infame, Que, só tão feio nome, he bem lhe chame; Porque a saber, que ás outras eu fallava, Não julgasse, que alguma me agradava; Porém que premio vim a tirar disto? Sabes o que? Com todos ser malquisto: Desprezarem-me todos, ver-me agora Aqui só, sem amigos, nem Pastora: E a falsa, tanto extremo desprezando, Amar outro, e ficar de mim zombando! E soffro tal injúria sem vingar-me! Poderei socegar sem despicar-me! Não, não socegarei, que hum peito irado Socega só depois de estar vingado. Sim, vou já despicar-me... Mas que intento! Que faço! Aonde vou! Que pensamento He este, que me occorre! Oh quanto errado Gyra o discurso de paixão cercado! Eu matar Galatéa! Oh que vileza! Naquella rara imagem da belleza Descarregar o golpe penetrante! E havião ver meus olhos nesse istante Aquelle brando peito traspassado! O rosto, bem qual Sol quando eclipsado! E os olhos, que daquelle Sol são raios, Perdendo a luz na sombra dos desmaios! Aquellas lindas faces tão córadas Eu poderia vellas desmaiadas! A boca rubicunda, e graciosa, Bem qual entre jasmins a linda rosa, Eu teria valor, teria vida, Para vella sem graça amortecida! E havião escutar-lhe os meus ouvidos O pranto, os ais, e os ultimos gemidos: Já com trémola voz, e a cada instante Vella convulsa, afflicta, e delirante, Sem alento, sem côr desfalecida, Dando hum suspiro, e acabando a vida! Oh Ceos! Que horror concebo em ponderallo! Eu tremo, gélo-me, e de dor estallo: Que coração tão barbaro haveria, Que obrasse tão enorme tyrannia? Eu teria valor, se a offendesse, Para vella morrer, sem que eu moresse? Não, não teria tanta impiedade, Que vendo cahir morta hume Deidade, Não me sahisse deste insano peito? O duro coração de dor desfeito. Nem mais contemplar quero tal desgraça, Que parece, que o Ceo já me ameaça, Que a terra vejo abrir, que já comigo Se abate, e me confunde por castigo. Ah! Minha Galatéa, vive embora, Bem que me sejas infiel, traidora: Ainda te amo, se bem, que o não mereças; Eu padeça, mas sem que tu padeças: Vive feliz, e logra o teu amante: Oh justos Ceos, que dor tão penetrante! Mal posso respirar, que até o alento Me soffoca a violencia do tormento. Vai-te, amigo, e me deixa só hum pouco, Que eu não estou em mim, eu estou louco: Oh! Venha embora a morte rigorosa Acabar-me esta vida tão penosa.

LAURINDO.

Deixa, amigo, esse louco desvario, Que o ser de homem deslustra, offende o brio: E que o mundo dissesse pertendias, Que por huma mulher enlouquecias?

POLYFEMO.

Tambem dirá, que não me altéra a offensa, Pois toléro a inimiga na presença.

LAURINDO.

Perdoando-lhe tu por generoso, Que ha de o Mundo dizer? Que és virtuoso. Mas se a fraca mulher ímpio punias, Só de cubarde o nome vil terias.

POLYFEMO.

Sim, perdoada está: eu lhe perdoo, Pois da sua fraqueza me condoo; Tambem, porque talvez seja innocente, Se bem que a culpa a accuse delinquente; Galatéa he honesta, he recatada: Pois quem duvida fosse requestada D'aquelle Ácis traidor, e que a enganasse Com vãs promessas, para que o amasse?

LAURINDO.