Feijó foi, na diplomacia, uma força desaproveitada. Além d'aquelles predicados, sobejavam-lhe as faculdades proprias do officio. Era subtil e d'uma prompta e profunda perspicacia; via bem, em conjuncto, os multiplos aspectos d'um acontecimento ou d'uma negociação; estudava as questões com ponderação e methodo; cauteloso, preparava seguramente o seu terreno antes de avançar; sabia (o que, na esgrima da diplomacia, é essencial) dosear, na sua justa e precisa medida, a finura e a lealdade; tinha, em subido grau, a correcção, a serenidade, a discreção, o tacto e esse grande e supremo dom que é, na vida ordinaria, como na vida politica, o nosso melhor guia, a nossa mais bem polarisada bussola—o bom-senso.

Tudo isto se valorisava e realçava pelo seu fino trato, pela amenidade e cortezia das suas maneiras, pela seducção da sua conversa, pelo brilho e a cultura do seu espirito, que tornavam sempre querida e agradabilissima a sua companhia, quer nos meios litterarios, quer nos meios mundanos.

E este é outro aspecto interessante da sua individualidade. Desde Coimbra, Feijó foi sempre o melhor e o mais deleitoso dos companheiros. A elegancia despretenciosa da sua palavra, a graça especial com que contava uma anedocta, o humour ligeiro, e levemente malicioso ás vezes, que punha no commentario a um successo ou na critica a uma personalidade, o pittoresco evocativo de suas narrações de viagem e a expansiva jovialidade do seu forte temperamento—faziam d'elle um cavaqueador irresistivelmente atrahente.

Elle era então, e foi por muitos annos, uma natureza robusta e alegre, um dyonisiaco, amando a vida e a belleza, um sorridente epicurista, gozando com volupia o instante fugitivo, mas um epicurista delicado, que punha, em todo o prazer, uma ponta de idealismo ou de emoção esthetica. Nas suas veias, onde corria bom sangue das velhas linhagens minhotas, devia haver mais globulos do do seu illustre patricio Diogo Bernardes, o cantor do «saudoso, brando e claro Lima», que elle descobrira na sua ascendencia, do que do d'esse Feijóo escudeiro, do tumulo de Celanova, bom fidalgo e cavalleiro, gran cazador e monteiro, a quem o poeta consagra a poesia final da Alma triste.

O seu contacto dava alegria, dava saude. Sob a suggestão do seu espirito parecia que tudo se animava e resplandecia, que a propria existencia se tornava mais amavel, mais apetecivel. De toda a sua pessoa, irradiava a joie de vivre. Junqueiro chamava-lhe, então, o opiparo Feijó…

VII

Mas um dia, um grande infortunio,—a viuvez inconsolavel, o seu pobre lar em ruinas,—devastou-lhe a alma, prostrou-o, roubou-lhe toda a alegria, envelheceu-o precocemente, tornou-lhe os ultimos mezes da sua vida tão negros, tão desolados, como essas interminaveis noites boreaes que tanto o torturavam e entristeciam,—a elle, filho d'estas bemditas terras do Sul!…

O que foi esse drama, em todo o desenrolar das suas mágoas e soffrimentos, dil-o o eloquente, commovido e fino commentario que, através das cartas do poeta, n'esse periodo, lhe faz Alberto d'Oliveira na communicação sobre a sua morte, dirigida á Academia Brazileira e que o leitor lerá com interesse e admiração, a seguir a este prefacio.

Ultimamente, porém, parecia querer reagir, despertar d'essa longa atonia dolorosa. Refugiado no amor dos filhos e na saudade da patria, onde ha oito annos não vinha, o seu derradeiro sonho foi revel-a, vir percorrer ainda uma vez o seu Minho querido, contemplar as aguas mansas do seu Lima, retemperar o coração n'essa magica visão de belleza e encanto, que, para todo o portuguez, ausente ou exilado, é este incomparavel torrão de Portugal!

N'este anceio, n'este volver d'olhos, sobre a Europa em guerra, para a patria distante, surprehendeu-o bruscamente a morte.