Morreu de amor o poeta amoroso que as neves da Scandinavia e a fleugma profissional da diplomacia nunca fizeram esquecer de que era um conterraneo de Diogo Bernardes e de que a sua alma fôra tambem creada á beira da poesia e da melancholia tão lyricas do Rio Lima. Morreu de amor o loiro fidalgo minhoto, herdeiro de muitas gerações de cavalleiros e trovadores, cuja antiga formação affectiva e moral nunca se alterou no seu perpetuo exilio, nem no convivio mediocre ou mesquinho dos seus contemporaneos. Morreu de amor Antonio Feijó, tão verdadeiramente como se morria de amor em Portugal no seculo XIII, no tempo d'aquelle Dom Pedro Roiz que mandou esculpir no seu tumulo essa causa unica da sua morte. Morreu de amor, começou a morrer de amor no momento em que viu para sempre

Deitada no caixão estreito,
Pallida e loira, muito loira e fria,

aquella mulher tão amada a quem sem o saber, sem a conhecer, tantos annos antes, fizera propheticamente, num dos seus mais bellos sonetos, o commovedor necrologio.

Antes de morrer de amor, no entanto, menos desafortunado que Dom Pero Roiz, Antonio Feijó vivera de amor. Sua mulher dera-lhe, em seguida a um longo noivado, quinze annos de intima ventura e dois formosos filhos. Mas Dona Mercedes Feijó era em tal grau a imagem da Belleza e da Graça que perdel-a, depois de ter vivido longo tempo sob a sua luz e calor, tinha de ser, como foi, a maxima angustia. Feijó sabia, podia medir com dolorosa precisão o tamanho e o valor da sua perda. Creio que poucas vezes encontrei creatura feminina tão seductoramente bella. Dona Mercedes era filha de pai sueco e de mãe equatoriana. Cruzamento do Polo e do Equador, como alguem disse, não é possivel imaginal-o mais feliz, alliando a pureza quasi divina das raças do norte á exhuberancia e alegria meridionaes. Era como um raio de sol corporizado; e comprehendia-se bem que da vida d'ella, mais do que da propria, vivesse o namorado companheiro. Não o sentiam talvez em toda a verdade senão os intimos da casa, porque Antonio Feijó era pouco expansivo e resguardou sempre o sacrario do seu Lar da luz crua e por vezes grosseira em que, por dever de officio, tinha de mover-se. Para as pessoas extranhas elles eram, sobretudo, um prestigioso casal de diplomatas a quem sobravam intelligencia, elegancia, tacto e brilho mundanos para exercerem completamente a sua missão. Feijó era ha mais de 20 annos ministro de Portugal na Scandinavia e ha muito tempo tambem o decano do corpo diplomatico de Stockolmo. Falava a lingua do paiz, conhecia toda a gente, era amigo do Rei e da familia real, vivia rodeado das deferencias e sympathias devidas ao seu talento e ao seu caracter, continuando e excedendo a tradição deixada pelo seu espirituoso e lendario antecessor Sotto Mayor, a quem a Suecia considerava, tal a sua popularidade, como um sueco honorario. Madame Feijó era, uma vez ainda, como um raio do sol equatorial n'aquellas sombrias regiões polares. A alegria e a vida da sociedade de Stockolmo eram, em boa parte, obra sua. Toda a cidade a chorou, sentindo a perda irreparavel. O seu enterro foi uma homenagem imponente em que as flores mandadas pelos reis e principes das tres côrtes da Scandinavia se misturavam com as flores do povo da pequena e graciosa capital sueca.

O meu querido amigo, apesar da profundeza e intensidade da sua dôr, sentiu chegar até ella as lagrimas e os carinhos de tantos corações e não poude deixar de impressionar-se com as provas de respeitosa e terna consideração de que todo um povo estrangeiro o rodeava em tão amarga hora. Mas não tirou d'essas homenagens o mais tenue balsamo para a chaga em que se convertera o seu coração. N'ellas viu apenas que o encanto da sua querida mulher era tão amplo e universal que até aos mais indifferentes attingia. Reconheceu, com paciencia e lucidez—formas terriveis, que, algumas vezes, reveste o desespero—que o seu lucto não era qualquer lucto e que Deus lhe destinara, depois de uma ventura excepcional, uma penitencia e uma amargura da mesma especie. E nada fez para escapar-lhes.

Tenho aqui as suas cartas, escriptas entre lagrimas; releio-as agora na maior commoção, e n'ellas posso seguir, como a curva de uma ardente febre, a historia completa da sua morte de amor. A ultima chegou só hontem, como sobrenatural visita, já depois de fria e inerte a mão que a traçou. Deverei ter escrupulo em citar aqui essas cartas? Não vejo, no entanto, melhor maneira de render ao grande coração de Antonio Feijó o preito que lhe devo. Não ha n'ellas uma palavra que possa parecer indiscreta perante a dupla campa de que ellas ficarão sendo o epitaphio.

Antonio Feijó tinha o habito supersticioso de escrever aos seus amigos em papel de carta de formato e côr sempre differentes. A sua ultima carta despreocupada e alegre é de 28 de fevereiro de 1914 e está escripta, como que por estranho presentimento, em papel côr de rosa. Nunca mais tive outra do mesmo humor ou da mesma côr. A carta seguinte, datada de 20 de abril, é amarella, côr de outomno e de morte, e traz as primeiras apprehensões duradouras sobre o estado de saude de sua mulher, que, mezes antes, já lhe dera alguns passageiros cuidados. Mas desde essa data nunca mais houve paz na sua vida. Folheemos devagar essa amarga correspondencia:

18 de julho de 1914: «Tenho tardado em dar-lhe noticias minhas, porque, no estado de espirito em que ando, não queria affligir as suas primeiras horas do Rio de Janeiro com lamentações e amarguras, a que o seu coração amigo não póde dar remedio. A minha querida doente vai melhor, já póde sair, já quasi póde fazer a sua vida habitual. Mas… este mas é que é a minha tortura de todos os instantes. Qualquer que seja a natureza e gravidade da doença, as recaidas anteriores não me dão a menor garantia para o futuro. É mais que provavel que a doença se reproduza. Não sei o que ha de ser de mim. A Imitação de Christo, que eu leio assiduamente, diz que à chaque jour suffit sa peine; mas eu estou longe de ser um bom christão, e a resignação é uma virtude que Deus só concede aos eleitos.»

Sobreveio a grande guerra, que ruge e estrondeia tão proxima, e que absorve o tempo e agita o espirito do diplomata. Mas, entre as suas occupações e responsabilidades do momento, instala-se logo a afflicção intima. Em 23 de outubro escreve-me:

«De saude vamos indo, graças a Deus; mas, sempre naquella preoccupação de que lhe tenho falado, não consigo horas de paz, já não digo perfeita, mas resignada. O futuro, de facto, na nossa idade, ou antes na minha, são apenas 24 horas, como V. diz; mas, 24 horas ou minutos que sejam, todos nós ambicionamos passal-as tranquillamente.»