Por entre este estrato lyrico rompem, na sua obra, veios de humorismo, onde, n'um tom faceto, o poeta mantem todas as suas eminentes qualidades de versificador.
Nas Bailatas, dadas a lume sob o pseudonymo de Ignacio d'Abreu e Lima, o fidalgo senhor do Castello de Anha, estheta enygmatico e extravagante, reuniu Feijó as composições d'este genero. E deixou nas Novas Bailatas, cuja impressão se seguirá á d'este livro, uma segunda série d'essas originalissimas poesias, mixto singular de ironia e de sensibilidade, de graça buffa e de melancholia, que, ás vezes, parecem haver sido escriptas por um Pierrot, ao mesmo tempo sentimental e charivárico.
N'ellas ha, realmente, um fino espirito de farça, um extranho tom joco-serio, transições bruscas da emoção para a gargalhada e da folia incoherente para as lagrimas. A phrase mais grave termina n'uma sahida jogralesca. A phantasia mais comica detona n'um grito de dôr.
Algumas d'essas poesias, como Sideria, Felina, Lithurgica e outras, são antigas e encantadoras parodias do decadismo e do symbolismo, que, um momento, despontaram e floriram na litteratura portugueza. Rimas difficeis e imprevistas, rythmos confusos e atropellados, alliterações onomatopaicas, imagens exoticas e sybillinas,—tudo isso, que era a essencia d'aquella esthetica e d'aquella prosodia, é manobrado com uma dextreza inegualavel, uma phantasia surprehendente, fazendo, d'essas caricaturas, trabalhos do mais fino e requintado acabamento artistico.
Até n'essas pochades em que elle desenfadadamente se comprazia, dando sahida á sua vis comica, se sentia a mão habil e maravilhosa do mestre.
IV
Mas Sol de Inverno é, sem duvida, a sua obra prima.
No frontespicio, por baixo do titulo,—na realidade bello, mas talvez suggerido por uma excessiva modestia e, por isso, improprio, como vou explicar,—o poeta traçou estas palavras: ultimos versos. E foram-n'o, de facto. Não porque o seu inverno fosse já tão adeantado que o sol do seu talento não pudesse fulgurar ainda demoradamente no horizonte d'uma dilatada vida. Não: o seu inverno ia apenas começar. Feijó não contava então, mais de 57 annos. Ainda se podia considerar no seu outomno. Mas parece que aquellas duas palavras, tristes como um distico tumular,—o epitaphio da sua Musa,—exprimiam um presentimento fatidico.
Esse anno de 1915, em que elle coordenou e preparou o seu livro para o entregar ao prelo, foi-lhe terrivelmente angustiado e doloroso. A esposa estremecida, a quem o consagrava no verso tão profundamente amoroso de Martial, debatia-se nos soffrimentos d'uma longa e torturante doença que no mez de setembro veio a ter o seu desenlace fatal. A desgraça ameaçava-o, pois, sinistramente. E elle adivinhava que não seria longa (como não foi) a sua resistencia ao golpe rude e cruel que sentia imminente.
É claro que muitas das poesias colleccionadas no volume não são d'essa epocha atribulada. E, assim, o sol que alli brilha tem muitas vezes, não apenas a doce e serena luminosidade do outomno, mas até o fulgor ardente d'um meio-dia estival.