Ouçamos as lindas quadras finaes do Inverno, onde esse sentimento tão docemente se exprime:

Nasci á beira do Rio Lima,
Rio saudoso, todo crystal;
D'ahi a angustia que me victima,
D'ahi deriva todo o meu mal.

É que nas terras que tenho visto,
Por toda a parte por onde andei,
Nunca achei nada mais imprevisto,
Terra mais linda nunca encontrei.

São aguas claras sempre cantando,
Verdes collinas, alvôr d'areia,
Brancas ermidas, fontes chorando
Na tremulina da lua-cheia…

É funda a mágoa que me exaspéra,
Negra a saudade que me devora…
Annos inteiros sem primavera,
Manhãs escuras sem luz d'aurora!

Oh meus amigos, quando eu morrer,
Levae meu corpo despedaçado,
Para que eu possa, já sem soffrer,
Dormir na Morte mais descansado!

V

A critica inscreveu o nome de Antonio Feijó no rol dos parnasianos portuguezes.

Não discutamos essas classificações d'escolas, que nem sempre são precisas, nem fundamentaes. Se o parnasianismo se caracteriza, de facto, pelo rigoroso cuidado da forma, pelo culto da belleza verbal, das linhas marmoreas da phrase, do seu corte lapidar, da riqueza das rimas, da euphonia dos rythmos, do poder evocativo das imagens,—Feijó pode chamar-se, com acerto, um parnasiano. A miudo elle repetia o preceito de mestre Theo: Ce qui n'est pas bien fait, n'est pas fait. Mas o que elle foi, na verdade, sem contestação e fundiariamente, foi um lyrico, na mais ampla plenitude da designação.

Toda a sua obra é dominada por essa nota emotiva, por esse accento de viva sensibilidade que constituem a essencia do lyrismo. O amor, o eterno amor, o enlevo da belleza, as torturas da paixão, as suaves melancholias, os tedios enervantes, as graças preciosas da galanteria,—são a substancia psychica da sua poesia.