—Que horror! O que a senhora fêz!...

A águia ergueu as asas num espanto e tornou a fechá-las lentamente. Depois, com grande enfado, foi dizendo:

—Que absurdos macacos são os homens! São os animais mais torpes que eu conheço. Como tudo que vive, como todos, só pensam em gozar, gozar a vida... e com esta obsessão a estorcegá-los, prendem-se os braços, castram os desejos, adoentam-se, torcem-se... progridem. Querem morder, morder bem fundo... e beijam-se; sentem calor e andam ao sol vestidos; amordaçam o instinto, os imbecis!... Encerram o desejo nas alcovas, onde não entre sol, sombra de lua... Tem estatutos, cláusulas, parágrafo. Não fecundam a amar, são fabricados: são produtos de indústria os homens de hoje! Chamam a isto Civilisação. Não vivem por viver: tem{27} deveres a cumprir, obrigações... E tudo isto em códigos, sistemas, em religiões, teorias, em morais!... P'r'ós que tentem ser homens a valer, há prisões, há leis, ha tôda a Ordem! Existem já na terra há muitos séculos, e ainda não começaram a viver... ou, se viveram, foi na Pre-História ou na Pre-Lenda! Que macacos absurdos! Que macacos!

—Mas pare um instantinho, oiça, oiça...

—Não me mace, senhor, não me interrompa... O que mais os consome e os faz grotescos, e os enche de vaidade, é a Consciência, o Espelho, o Guia, o grande Guia, que os levou a isso que são hoje...

Atalhei, como quem aponta um cumplice:

—A culpa foi dêsse Hebreu de quem falámos. Talvez se o seu segrêdo se soubesse...

—Não foi só d'Êle, foi de muitos outros... Antes d'Êle e depois..., de muitos outros.

Tremeu-lhe o corpo todo. Arrepanhavam-se-lhe{28} as penas. Estava outra. Via-a transfigurar-se com espanto.

—O senhor é bem um homem. Não se pode nutrir sem illusão. Quando há pouco lhe disse o meu segrêdo, dei-lhe a entender que se êle se soubesse, havia na verdade um Redentor, os homens viveriam sôbre a terra. Tive pena de si que é um desgraçado. Sempre lho digo agora: era inútil! Conheço bem os homens por meu mal. O segrêdo do Hebreu que lhe contei, não é um caso único: é de sempre. Á hora de morrer—a uma águia, aos lençois ou ao travesseiro, todos os homens tem como êsse Hebreu, um segrêdo supremo a revelar. É apenas isto: a confissão de que morrem sem viver.