Continuou depois com o bico alto:

—Os homens são uma espécie condenada. São bastardos de planta e de fantasma.[[1]]Quem disse isto? Não sei... estou sem memória. Raça de escravos vis,{29} raça de escravos! E p'ra fugir à Vida o que inventaram! Como trabalham, suam e tressuam!... Dissecam tudo, árvores e pedras, fecham-se em quartos a estudar micróbios... E cada dia são mais desgraçados, mais fracos, mais inquietos e mais tristes!... Cada dia se embrulham mais em roupas, põem mais vidros nos olhos, tem mais mêdo... E cada dia fogem mais à vida! Que imbecis! Que imbecis! Que espécie torpe!

Sentia-me exaltado, nervosíssimo. A voz saíu-me estrangulada, rouca, em sobressaltos, brusca, sem fluência:

—A senhora diz coisas que me espantam, que por vezes são justas e terríveis, mas há outras tambêm que não entende, que não pode entender, sim, que não pode. É natural. A senhora é de outra espécie. Tem vivido com os homens mas é águia... e águia ficará até morrer.

Parei. Sentia-me vazio, em suores álgidos, quási incapaz de articular palavras. Ela então, com a plumagem toda crespa, transfigurada{30} agora, agora outra, já com metal na voz, interrogou-me:

—O quê? O quê? O que é que eu não entendo?

Sem recursos, nulo, desvairado, atirei-lhe êste lugar comum, como se estivesse a falar com um jornalista:

—Por exemplo: o Sentimento, a Beleza moral que há no Universo!

Vi-a saltar do poleiro, esvoaçar, bater asas de fúria nos arames, e recaír depois na mesma pose, a arquejar, asmática de raiva. Ficou assim sem fala ainda algum tempo. Apeteceu-me fugir. Tive vergonha. A voz dela por fim veio em arestas, ferindo o meu orgulho já ulcerado:

—A Beleza moral!... O Sentimento! Que fizeram com isso?... Que fizeram? A Harmonia social, êsse concerto que é de rasgar os olhos e os ouvidos. A fome, a revolta, o desespêro... A raiva de saber, de analisar, de fechar em teorias toda a Vida... A Dúvida, a loucura metafísica, e o culto da dor, êsse onanismo!... A impotência em{31} tudo, a impotência... E por paródia à luta de viver, uma luta sem garras, enluvada, um ódio triste e covarde, corrosivo; a intriga e a cilada pela fôrça; a caridade que é o egoísmo doente, e o culto dos ídolos, os cultos, a escravidão aos deuses e às ideias... A Harmonia social... essa gaiola onde vivem a uivar os homens todos!