Dava gritos estrídulos, sarcásticos: as penas erriçavam-se de fúria.

—Oh! O ódio dos homens, que grotesco! E há classes opressoras e oprimidas, com fórmulas, com cláusulas, com leis!

Não é o ódio celular, contracturante; não é o ódio animal todo de instinto; não é o ódio de todos quantos vivem! O ódio dos homens foi canalizado, por seitas, por classes, por partidos, em dogmas, preconceitos, covardias. Nos outros animais o ódio é orgânico! Todo o combate é sempre pela Vida. O dos homens é anémico, missérrimo, e defende o dever, o preconceito, as taras de domínio e servidão, e até mesmo na revolta é miserável, pautando a Vida, sistematizando.{32} É o ódio da paródia de viver, do fantasma de Vida que êles vivem!...

Parou. Eu estava como tonto, desvairado. Tinha decerto endoidecido essa águia velha, delirava, dizia só loucuras; mas eu não achei nada para opor-lhe, p'rà aniquilar nêsse silêncio de fadiga. De súbito lembrei-me: a Arte, a Arte, tôda a minha quimera de mãos postas!

Sentindo-me desta vez irredutível, gritei-lhe p'rà gaiola:

—E a Arte? A Arte? Consolação suprema de viver...

Teve farpões de escárneo ao responder-me:

—A Arte!... A Arte é a expressão da Vida. São os homens que o dizem, não é assim? Ora se êles não vivem, se não vivem, se parodiam a Vida a cada instante, se fogem mais e mais da grande Vida, a Arte é uma paródia de paródia, um espectro de espectro... miserável! Querem com tintas imitar o céu, e transcrevê-lo em lonas, em madeiras!... O céu bebe-se aos haustos,{33} com os olhos; olha-se por olhar, sem intenção; recebe-se nas pupilas extasiadas, que se alargam mais com sêde dêle... É o que faz um sapo a olhar os astros! É o que os homens não compreendem nunca! Toda a terra é feliz se o sol a doura; tudo germina, as pedras e as sementes... Só os homens que se cobrem p'ra evitá-lo; que nas cidades gastam horas a vestir-se; que tem por céu só um paninho côncavo a que chamam guarda-chuva ou guarda-sol; que o filtram nas igrejas por vitrais, que usam lunetas, que o receiam sempre; que tem medo da morte às suas garras, deslumbramento e orgulho de águias soltas; só os homens, absurdíssimos macacos, querem copiá-lo em lonas, em madeiras, com tintas, com carvões, com paus de côr!...

Que macacos absurdos, que macacos!

Bem quis interrompê-la, não podia. Vibrava de loucura negadora, hierática, estranha, convulsiva.