Certo, o farrapo de penas que hoje sou, é bem obra dos homens. Certo, certo... Mas aqui mesmo, num poleiro reles, garras em cotos, quási paralítica, consola-me pensar que nenhum dêles será nunca o que eu fui, asas e garras, vivendo pr'ó Desejo pelo instinto, e em nomaderias de vertigem, amando tudo, tudo, a terra tôda, na luxúria suprema e inconsciente, de viver, de viver só por viver!
Fêz uma pausa. Tive a visão daquela vida fulgurante, evocada em gritos de delírio, por essa pitonisa de asas longas que cortava com o bico o meu destino.
Foi então que eu ouvi estas palavras, que eram mais que um soluço, que um crocito, uma espécie de guincho em que houve lágrimas.
—Iriam cair nas mãos dos homens os meus filhos!...{42}
Lambeu-me um calefrio de vertigem.
Era demais, meu Deus, era de mais! Não era já o meu orgulho em chaga, enovelado como um trapo nessas garras: o que eu agora queria, o que era urgente, era mostrar a essa águia, a essa mãe, que o seu dolorosíssimo terror era uma apreensão de louca, uma injustiça: o que eu agora queria de alma tôda, era mostrar-lhe o coração dos homens p'ra que ela o visse bem e tão patente, como se lhe pendesse a sangrar do bico curvo. Pr'à convencer daria tudo, tudo. Procurava um meio, sem achar. Sentia a inanidade das palavras. Com uma idea súbita falei-lhe:
—Vou abrir-lhe a gaiola. Vai ser livre.
Era decerto o pasmo que a gelava, porque não saiu da treva uma palavra. Eu continuei numa emoção crescente em que vibrava a ânsia de a soltar:
—Vai ser livre, livre como outrora. Acorde as suas asas esquecidas. Diga adeus a essa gaiola imunda. Olhe mesmo daí: que encanto de hora! A noite arqueia ao pêso{43} das estrelas... Uma palavra sua e abro-lhe a porta. Não duvide. Sou forte. É num instante...
O seu recorte altivo de águia em bronze amezendou: fôsse fadiga ou tédio. E num becejo vago, interrogou-me: