—Vai abrir-me a gaiola... mas p'ra quê?...

—P'ra quê?! P'ra que antes de morrer domine o espaço... p'ra sentir a vertigem do infinito...

—Eu?!... repetiu numa fleugma desdenhosa. Eu?!... Saír dêste poleiro, da gaiola? Não sou doida varrida por emquanto. Saír da minha casa, do conforto pr'á incerteza da noite, p'rò mistério?... Sou uma águia mas vivi entre homens. Já estou civilizada, meu senhor... E se o vento me arranca as asas velhas? E se chover, e se chover? Já pensou nisso? Nem com as garras enluvadas eu me atrevo... Nem que me cubra as asas de impermeáveis...

Nem com um water-proof, nem assim...

A águia ria, ria doidamente. Crispei as{44} mãos nos arames, exasperado, e com uma voz enrouquecida fui dizendo, num tom de confissão, quási febril:

—Imagina talvez que a não entendo, que sou um homem como os outros, imagina...

É natural... é natural. Não me conhece... Mas eu quero dizer-lhe: oiça! oiça!

Há em mim um não sei quê de águia marinha. A sua sorte comove-me, acredite. Quero tambêm dizer-lhe o meu segredo, quero desabafar, contar-lhe tudo...

Bateu as asas com um ruído sêco, e num timbre fatídico de corvo, com uma voz de sibila, crocitante, atirou-me estas palavras derradeiras:

É cedo, é cedo ainda. Imite os outros. Diga isso ao morrer ao travesseiro.