Esse sarcasmo último transiu-me; e como quem se agarra ainda á esperança, pus-me a gritar p'rà gaiola, tontamente:
—É o convívio dos homens que nos perde. O seu destino é irmão do meu, escute... Queria ser forte e belo, queria...
Falei, falei, falei... Não sei que disse.{45}
Sandices e quimeras e desejos, larvas de ideas, raivas, desesperos. Parei por fim.
Já nem lhe via os olhos. Decerto cerrara as pálpebras com tédio. Só o vulto de sombra sôbre a sombra se alongara mais, estava maior. Ouvi então uma sineta banalíssima, a pôr-me fora sêcamente: era já tarde. Olhei ainda a gaiola, despedi-me, atirei-lhe p'ra lá um «adeus» surdo. Ao passar na jaula do leopardo, senti um cheiro mau a carne podre. Vi-lhe o vulto enigmático de esfinge, a cabeça nas patas dianteiras, os olhos de oiro fulvo, fuzilando. Se aquele me falasse, o que diria!... Atravessei o parque silencioso, como numa balada, com terror. Vi nas acácias os pavões adormecidos, olhei o céu filtrado por folhagens onde um langor de outono se esfolhava, e à saída já, p'ra me calmar, molhei as mãos febris numa das taças e passei-as nas fontes consolado.
Achei-me emfim na rua, longe dela.
Um rapaz namorava mesmo em frente, a patrulha descia compassada, disse-me adeus{46} um côco conhecido: dobrava a esquina um eléctrico apinhado. Tinha ainda no ouvido a voz da águia, quando saiu de uma janela aberta uma ária roufenha de fonógrafo.
Comuniquei feliz com a vida reles. Depois disto, é evidente, não posso mais falar-lhe. Ainda bem! Levava-me ao suicídio essa águia velha.{47}
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