A JOÃO DE BARROS

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[O precoce]

Desde que o Emílio estava doente, todos os dias, ao anoitecer, se reuniam no seu quarto e assim ficavam algumas horas, numa intimidade meiga, como se dessa cabeça de precoce, ungida de sossêgo, dos seus olhos de adivinho, de um veludo grande e calmo, se exalasse paz, uma paz clara, em que tudo se perdoasse e se esquecesse.

Tinham já lugares marcados. A mãe à cabeceira, logo ao pé a tia Olívia, p'ra contar histórias; os outros em redor, e aos pés da cama, em frente ao doentinho, o busto nobre do tio Eduardo, já grisalho, a sua máscara fina um pouco vaga, como a{50} de todos os que vivem no silêncio como outrora se vivia num convento. O pequenino era assim uma figurinha de mito familiar, e nas suas palavras lentas, de intuição e de carícia, todos se ouviam como o mar nas conchas. Tinha uma voz de sombra amiga. Adoravam-no. Mas agora, martirisado de dores, a consumir-se dia a dia, as mãozitas transparentes, entravam no terror de o ver pior. E se um móvel estalava, um farrapo de luar batia os vidros, ou ao cair da noite, a sombra vinha,—tremiam no silêncio, tinham medo, como se disfarçadamente a Morte entrasse, viesse de mansinho p'ra gelá-lo.

Às vezes, nas pausas de algum conto ou da conversa, se alguêm se voltava, logo os outros inquietos o seguiam; e era vulgar olharem a porta de soslaio, como se esperassem alguêm, uma visita...

Todos falavam em surdina, velando a voz um pouco opressa, e assim as coisas mais banais tinham um não sei quê de estranho; as palavras caíam como fôlhas sêcas e nos{51} olhos de todos havia uma expressão de adeus. Nem todos, nem todos! A mãe radiava fé. Bastava ver-lhe as mãos correndo a dobra do lençol, de veias altas, entumecidas de ternura, e poisarem numa geada de beijos nas mãos do seu filhinho, para sentir a emoção louca, religiosa, tendo ressurreições em cada gesto, sarando num olhar, numa oração. É que essa creança era a sua própria alma, presa naquele leito como um passarito enfêrmo, abrindo p'ra ela olhos enormes, como p'rá decorar bem, antes de partir; e dizendo de quando em quando: «mamã, minha mamã», num rumor de asa cansada.

Era muito moreno, tinha a testa alta, um pouco bombeada, bôca de lábios finos, mento curto, bosselado em covinhas, que a magreza já quási que delira. Mesmo quando tinha saúde, ria pouco; não sabia brincar e qualquer coisa, o mais simples aspecto, o distraía como numa visão inconsciente.

Tinha um ar de quem se lembra. Uma vez foi ao colégio. Voltou com febre, doente,{52} a tremer todo, e quando o pai o interrogou, só pôde dizer «que não era nada, que não tinha nada». Mas à noite, quando a mãe ia a deitá-lo, rompeu a beijar-lhe as mãos, num chôro brusco, e mal pôde pedir entre soluços, de mãos postas, p'ra não voltar... p'ra não voltar mais ao colégio.

—Sossega, meu filhinho. Quem te fêz mal? Que te fizeram? Não voltas mais, não voltas mais. Que te fizeram?...