—Vi bater num menino.
E outra vez o chôro o sufocou, em bagas grossas, torcendo o seu corpinho de arbusto à ventania. Nessa noite teve febre, delirou, e os pais resolveram que tão cedo não voltava. Pediu então à mãe que o ensinasse. Ao caír das tardes, com a costura no regaço, ela dava-lhe lição, e em pouco tempo, por entre confidências que eram beijos, êle aprendeu maravilhado a ler. O seu amor cresceu ainda, como regado de gratidão. Dizia «mamã» como quem reza.
Adorava-a. Nas tardes de sol, os irmãos brincavam no quintal; chamavam-no, e como{53} êle era o mais pequeno, faziam-lhe mimos, numa grande ternura protectora. Êle não ia, desculpava-se. Preferia ficar junto dela, na varanda de pedra, a vê-la bordar.
—Não queres brincar, Milinho? Vai, vai brincar com os manos.
Êle erguia os seus olhos de veludo:
—Deixe-me estar ao pé de si, mamã. Não há nada tão bom p'ra mim.
Raro saíam. Ás vezes, com a mãe, ia às tardes à Foz p'ra ver o mar. Voltavam ao anoitecer. Falavam pouco.
—Gostas do mar, Milinho?
—Muito, mamã, muito. É a coisa mais linda que há.
Foi ao voltar de um passeio assim, numa tarde de novembro, que o pequenino teve tosse e cuspiu sangue.