—Que te dói? Dói-te o peito?

—Pouco, mamã. Não se aflija. Não há-de ser nada.

O médico veio, aconselhou cautela, receitou. Teve depois com o pai uma conferência larga. E foi então que o terror abriu{54} sôbre ela as asas concavas, geladas. Não podia dormir. Levantava-se a cada instante, p'ra ver se estava bem coberto, se tomara o remédio, p'ra senti-lo. A tosse dêle feria-lhe tambêm o peito; transia-a tôda, como um dobre. Vestia-se à tôa, sem cuidado. Tudo o mais lhe era indiferente. Marido, os outros filhos, família, governo da casa, visitas, os outros... que lhe importavam agora, se o seu filhinho estava mal?

E extenuada, adormecia às tardes à cabeceira do doentinho, que a olhava a sorrir, muito feliz, como se fôsse um ser de conto preso num lindo encantamento. Pouco a pouco, apesar de ninguem o achar melhor, foi-se esvaindo o terror dela, e uma grande loucura, a loucura divina da esperança, galvanizou-a de coragem, deu-lhe fé. Amava-o com tôda a carne e tôda a alma.

O casamento tinha sido, p'rá sua índole delicada de romântica, uma decepção dolorosíssima a que pouco a pouco se adaptara. Não teve crises, não sofreu violentamente. Foi um esperecer lento da ilusão;{55} todo o seu sentimento que morria como uma planta à sêde; e ela curvara a cabeça, aceitava a vida que lhe davam, com uma resignação de fraca que se esquece. Teve dois filhos. Criou-os. E uma paz de maternidade um pouco animal, foi-a calmando; o seu passado de sonho estava longe, nas águas mortas da memória; e ia vivendo assim, anestesiada, sem os sobressaltos de nervos de outros tempos, uma vida normal e clara, no seu lar, entre os seus. Era uma renúncia sem tortura, inconsciente.

Passaram alguns anos, uniformes, que só a doença de um filho ou do marido vinham alvoroçar de longe a longe, e que por fim se sumiam na memória, na mesma cinza neutra, pardamente. Vivia como se fôsse a própria sombra. Já não esperava ter mais filhos. Quando soube que ia ser mãe ainda uma vez, teve a emoção maior da sua vida. Certo, ela foi sempre boa mãe: amava os seus dois filhos muito e muito. Mas agora era diferente, era outra coisa. O que viria era mais, bem mais que os outros: era o{56} filho dela e do seu sonho... Ressuscitou em si mesma: renasceu. O seu sangue resava nas artérias promessas que antes não lhe ouvira, e começou a parecer-lhe que êsse filho era a compensação que Deus lhe dava, quási um milagre, a flôr inesperada em que o seu sonho redivivo iria abrir.

A sua vida banal, desencantada, murchando dia a dia, sem interesse, num automatismo frio e resignado, fôra uma provação, tinha passado: e os seus nervos de histérica, despertos, com todo o amor que a vida sufocara, calcado em resignação, morrendo à sêde, renasciam a vibrar de esperança, davam-lhe uma beatitude transcendente.

O seu filho (estava certa que era um filho) seria um pequenino abençoado, com um destino que só ela e Deus sabiam, e no primeiro olhar que êle lhe desse, pressentiria um evangelho novo como um beijo a correr-lhe tôda a alma... Tudo mudou na vida dela, tudo. Mal falava aos filhos, ao marido, que interpretava a estranheza dos seus modos como a mudança de carácter,{57} os caprichos que muitas mulheres tem naquele estado. Se a olhavam insistentemente ou lhe faziam perguntas, alusões, isolava-se, desaparecia de repente, como alguêm que vive p'ra um segrêdo e receia que os outros lho desvendem. Parecia mais alta, elanguescida, com grandes olhos sempre a olhar p'ra dentro, como teem certas aves e os mármores.

Em solteira, nunca fêz confidências às amigas. Tecia a sua teia no mistério. Todos lhe achavam qualquer coisa de dormente: não compreendiam bem o seu carácter. Mas como era modesta e era boa, esquecida de si mesma e sem vaidade, deixavam-na viver no seu silêncio como um nelumbo de pureza à flôr de um lago. Mesmo no seu isolamento da província, onde vivera com os pais até casar, lia pouco e sempre os mesmos livros: vidas de santas, lendas de conventos. Exaltava-se com êles, tinha fé em qualquer coisa que Deus lhe reservava. Durante os serões lentos, costurando, scismava que nascera para freira. Toda a sua energia,{58} a sua força, abrasava o seu sonho, era interior: e quando batiam à porta da sua alma, ela saía distraída, resignada, a obedecer aos seus passivamente. Esperava contudo um não sei quê. O Destino dissera-lhe um segrêdo. E sem contar a ninguêm o que pensava, vivia como uma eleita: estava à espera... Os seus vinte anos em flôr eram p'ra êle.

Foi debruçada a esta ogiva de mistério, que a vieram chamar para a casarem. Depois a decepção, o sofrimento: mais tarde a renúncia, a anestesia na sonolência banal dos seus cuidados.