Apesar de não casarem por amor, outra qualquer, no seu lugar, era feliz. Êle era forte, delicado e bom. A sua vida de engenheiro absorvia-o. Quando viu que aquela rapariga, que conhecera na província vaga e meiga, continuava nos seus braços abstraída, com um olhar desencantado e quási triste, compreendeu que fizera mal em ir buscá-la como quem colhe um lindo fruto: erguendo o braço. Tentou então insinuar-se{59} pouco a pouco, interessá-la nas suas coisas, diverti-la. Por fim resignou-se, desistiu. Como não era um sentimental, um romanesco, e a sua profissão o apaixonava, contentou-se em ter nela uma amizade, um ser de lialdade e de doçura, desdenhando teatros e convívios pela paz transparente do seu lar, e vivendo p'ra êle, para os filhos, e para aquela vida inviolada que desfocava os seus olhos noutros céus... Como porêm tudo mudara agora!

Dia a dia, a exaltação dela ia crescendo. Uma noite mesmo teve febre, e o médico lembrou que p'rà calmar, era melhor uma mudança de ares, uma temporada na aldeia ou à beira-mar. Partiu então p'rò Minho, para a quinta, e como nem o marido nem os filhos podiam nesse tempo acompanhá-la, levou consigo apenas as criadas, dizendo que preferia ficar só na grande paz do campo, a sossegar.

Era na Páscoa. Nessa ressurreição da primavera, ao abrir a janela do seu quarto, aspirou no perfume dos lilases a esperança{60} que subia com as seivas, vibrando já nas asas migradoras e no pólen que doirava o ar.

Enternecia-a tudo: as relvas novas, ver os rebanhos beberar às tardes quando os montes violáceos se concentram, os pássaros felizes no pomar, e à hora das regas, ao crepúsculo, a alegria das águas borbulhantes, quando as estrelas vem, tudo descansa, pelos atalhos vão chiando carros, e nos paúis, pobres poetas liricos, os sapos piam comovidamente. Nunca sentira tanto a natureza.

E foi nesta atmosfera de pomar que ela esperou misticamente a hora suprema, querendo sofrer, feliz, extasiada, como uma nuvem alta da manhã que o sol rompesse p'ra descer aos homens...

Davam Trindades. A tia Olívia contara um lindo conto. Ao sair dos palácios de feeria por onde a voz dela o ia levando, o Emílio ficava a olhar as jóias, os anéis, a{61} pedras preciosas esparsas na sua mesa de doente e luzindo em sortilégio, na penumbra. Eram olhos de fadas, encantados...

Não tiveram remédio senão dar-lhos: por quanto tempo, meu Deus, por quanto tempo?... P'rò distrair, há dias, o tio Eduardo tirou os anéis e deu-lhos, e como o viram ficar muito contente, os outros deram-lhe tambêm os que traziam. Mas quando iam nessa noite a despedir-se, êle ficou tão triste ao entregá-los, que o tio Eduardo propôs que lhos deixassem e todos imediatamente consentiram.

—Fica com êles, Milinho, guarda-os, guarda-os.

—Mas não são meus, não quero... Assim, não quero...

—São todos teus, são todos teus, meu filho.