Então em roda todos confirmaram a mentira damor que o alegrava.
Daí por diante, sempre àquela hora, vivia num delírio de gandezas. Mas nesta tarde, ou porque o conto mais o impressionasse,{62} ou porque estava mais fraco e com mais febre, a excitação do Emílio era maior. Os seus olhos de mago, muito abertos, dois veludos de febre ainda mais negros, maguavam-se fitando as pedrarias, êsse baile de côres e de reflexos que pareciam mais vivos na penumbra, e como se a febre dêle os contagiasse, tinham fulgurações de um brilho agudo. Abria, abria os olhos fascinado.
—Que lindo, mamã, veja que lindo!
Toda a sua carita consumida desaparecia no clarão dos olhos, mais pretos que asas de andorinhas, ao tremerem no ar em despedida. Outro sino mais longe deu Trindades, numa voz de prata e de fadiga, como se lhe custasse a vibrar até ao quarto. Todos estavam opressos, sem falar. E êle, erguendo os braços de repente, deixou-os ir cahindo sôbre as jóias, cobriu-as com as palmas das mãosinhas, puxando-as contra o peito avaramente:
—São todas minhas, não é? São todas minhas...{63}
—Todas, Milinho, disse a mãe transida. Vergou-se então sôbre elas com esfôrço, como se fôsse p'ràs beijar, branco de cera, e repetiu ainda extasiado:
—É lindo, lindo... lindo. Não dou nenhuma a ninguêm. São todas minhas.
Espalhou-as um pouco sôbre a mesa, pôs de parte os anéis, ficou a olhá-los, e sorrindo à idea que tivera, disse baixinho:
—Vou pô-los nos meus dedos. Começou a enfiá-los com cuidado nos dedinhos ossudos, só falanges, mas deixava-os cair a cada instante, largos de mais, em fugas de reflexos. Já ia na terceira tentativa, num desespero mudo, a arfar cansado, quando o tio Eduardo e a mãe o ajudaram. Levantaram-lhe as mãos quentes de febre, e enfiaram-lhe os anéis nos dedos ósseos, que êle ergueu quanto pôde, deslumbrado.
—Mamã! Estavam a dar Trindades. Vou rezar uma avé-maria, vou rezar.