Na penumbra da alcova, de mãos postas, escorrendo em reflexos irisados, a sua{64} vòsinha disse a avé-maria num timbre muito fino de carícia, como um adeus que punha os olhos rasos, num veludo expirante de palavras, dêsses que tem no outono, a horas mortas, certas fôlhas de arbusto a despedir-se. Nem o tio Eduardo se conteve. Brilhavam-lhe já lágrimas nos olhos. Ninguêm tinha coragem para falar.
A lua, que agora vinha muito cedo, batia na varanda, brancacenta. Êle tirou os anéis devagarinho, como um ser de conto, a sorrir sempre, e deitou-se p'ra baixo fatigado.
—Dê-me as suas mãos, mamã, quero senti-las.
E ficou a beijar-lhas muito calmo. No enleio de uma emoção religiosa, todos queriam quebrar êsse silêncio, feito de sonho e de apreensões de morte, que avançava talvez na luz do luar. Foi o tio Eduardo que falou:
—Esteve hoje um dia lindo, quási quente. Temos à porta a primavera. Dentro em pouco, Milinho, estás mais forte; já podes dar à tarde o teu passeio.{65}
—Logo que possa, mamã, vou ver o mar. Consigo, sim?
—Se Deus quiser, meu filho, havemos de ir. E ainda antes, has-de ir para o quintal brincar com os manos. Sabes que a tua árvore, a magnólia, já está cheia de flores muito brancas?
—Ó mamã, mamã, deixe-ma ver,—pediu êle erguendo a cabeça de repente.
—Mas vais apanhar frio, meu filhinho. Amanhã, amanhã, agora não.
Tanto insistiu, que o levaram ao colo até à janela, embrulhado em cobertores, muito contente, e ficou assim alguns instantes, a carinha colada contra os vidros, no deslumbramento da magnólia, da sua árvore, erguendo o tronco negro e lívido de lua, e nos ramos implorantes e afilados, as flores mais brancas que há na terra.