Deitaram-no. Deviam ser nove horas, pouco mais. E como sempre, levantaram-se todos p'ra partir. Cada um então foi dar-lhe um beijo, e ao apertarem-lhe as mãos—adeus Milinho!—êle olhou-os desta vez mais{66} devagar, com um olhar que nunca mais lhe viram, em longes de meiguice, de outro mundo, numa névoa de lágrimas contentes. E sorria ao dizer:
—Adeus, adeus. Tio Eduardo, tia Olívia, adeus, adeus...
Essa creança assim, a despedir-se, com uma voz perlada de carícia, encheu-os de aflição e de terror; e foi mordendo os soluços, sufocados, que saíram da alcova, que partiram, ouvindo dentro dêles o crocito—nunca mais! para sempre! never more!—dêsse corvo fatídico, de lutos, que Poé revelou em versos trágicos. Qualquer coisa de lindo ia morrer. Qualquer coisa de lindo ia morrer...
No emtanto na alcova, o pequenino, alongava os bracitos para a mãe e dizia feliz, como em segrêdo:
—Que bom, mamã! Que bom estar só consigo! Sente-se aqui depressa, mais pertinho...{67}
—Aqui me tens, Milinho, aqui me tens. E beijava-o na testa longamente.
—Como eu gosto de si, minha mamã! Quem me dera viver sempre ao pé de si!
—Deus há-de-te sarar. Verás, verás...
—Bem sei que lhe faz pena, não se aflija: qualquer dia, mamã, eu vou partir...
—Nem digas isso, meu amor, nem digas isso.