—Vou-me embora, vou, p'ra muito longe... Não faço falta a ninguêm. Ficam-lhe os manos. Só lhe deixo a si muitas saudades...

—Se tu gostas de mim, não digas isso.

Êle tornou mais lento, resignado:

—Por sua causa, mamã, queria viver ainda que fôsse assim... sempre doente, sem saír do quarto, ao pé de si, mamã, ao pé de si...

—Agora precisas de dormir, de descansar. Fecha os olhos, Milinho, dorme, dorme...

—Então dê-me as suas mãos. Quero dormir com as minhas mãos nas suas.{68}

Dentro em pouco, serenamente, adormeceu. Ela tirou as mãos devagarinho, aconchegou-lhe a roupa contra os ombros, e afastando-lhe dos olhos o cabelo, deu-lhe um beijo na testa, muito leve.

Já o luar escorria pelos vidros em lágrimas de opala e de mercúrio. A noite vinha ver o seu filhinho e enchê-la de esperança e de coragem. Como o pai disse recolher mais tarde (uma entrevista no club p'ra negócios) mandou deitar as criadas, ficou só: esperá-lo-ia ali, junto ao seu filho. Como dormia bem, tão sossegado! Deus era bom, havia de salva-lo. E numa exaltação, quási feliz, encostou-se à vidraça a olhar a noite.

A magnólia ao luar estava divina. Se o pequenino a visse, o pobresinho! Como êle gostava das árvores, do mar! Não se lembrava de ter visto um luar assim. Fazia-lhe tão bem: calmava-a tôda. Via ao longe, no rio, as mastreações, e distinguia as vêrgas, o velame, a luz dos estais à pôpa, nictitando. Vila-Nova, a casaria, os arvoredos, subiam do outro lado empoalhados, e a névoa que{69} se erguera pouco a pouco, era já na colina ao luaceiro uma via-láctea nova, avoejante, salpicada de luzes, muitas luzes, como se Deus atirasse com amor, às mãos-cheias de estrêlas sôbre a terra. Toda a mole granítica da Sé, galvanisada a lua, se animara: corria luar nas veias dessas pedras, morenas do sol de tantos séculos, e tôda a catedral se eterizava como se as gárgulas aladas das cimalhas acordassem p'ra tentar um voo último. A casaria mesmo, estava absorta. Que lindo, meu Deus, como era lindo! Elfos de lua, gnomos, rondas fluidas, andavam no ar com o pólen dos jardins, e as rosas de toucar por sôbre o muro, fechando todo o quintal em trepadeiras, tinham nuances de síncope, esmaiadas. A paisagem era um sonho deslumbrado, numa assunção p'ra Deus, erguendo os caules, e os troncos, as torres das igrejas, e os olhos das janelas: de mãos postas. Deus fundira-se em lua, andava esparso, como um filtro de sonho, transcendente, propiciando, amando, perdoando.{70}

Bem certo: o seu filhinho sararia. E nessa maré-cheia de luar, no encantamento sortílego da noite, a esperança subia a aluciná-la despertando o sonho místico de outrora. Aquella figurinha não mentia: os seus olhos de mago eram proféticos. As suas mãos tocando adivinhavam, como naquela noite, há já três meses, em que uniu, sob a bênção dos seus olhos, as mãos do tio Eduardo e da tia Olívia, no silêncio que em roda se fizera. Assim os dois souberam que se amavam, e ficaram a olhar o pequenino como numa liturgia nupcial... E não tinha sete anos ainda então! Mesmo a sua conversa perturbava, com inflexões de médium, reticentes, em que palavras de sempre, as mais comuns, se engastavam em timbres de mistério. Nascera para amar, o seu filhinho. E tudo, a sua voz de concha meiga, a sua palidez estiolada, os seus olhos de oráculo—criança, diziam bem um ser predestinado, um guiador augusto de destinos, em cuja atmosfera de carícia muita dor havia de acalmar-se, como{71} um perfume de rosa, a certas horas, nos beija com uma bôca de perdão.