Toda a vida do seu filho ia passando. Descaíam-lhe as pálpebras, ao peso das quimeras debruçadas. E de repente, estremeceu gelada. Sentiu o luar nas mãos, subiu-lhe aos seios... Se a beleza da noite, transparente, êste aquário em que a lua abria as veias e a vida da terra ia boiando num abandono de ninfeia aberta, fôsse afinal uma cilada d'Ela, um disfarce da Morte p'ra roubar-lho!?... Meu Deus, meu Deus! Era possível que ela viesse assim, essa maldita, na feeria argêntea dessa noite, com a fouce escondida em musselinas, silenciário carrasco sem memória, correndo em passos de êxtase e de opala, e matando com um hálito de gelo, num aflorar de plumas hesitantes junto do qual um beijo era grosseiro?... Um instante o terror alucinou-a. Não deixaria a lua entrar na alcova! Ia fechar as portadas, e no escuro, colando o corpo contra o seu filhinho, estaria mais segura, a defendê-lo. Num sobressalto, foi até junto{72} dêle, ficou queda. Que imensa paz nessa carinha meiga! Pôs-lhe a polpa dos dedos sôbre a testa. Estava muito suado como sempre. Mas a sua respiração era tão calma, e na concha das pálpebras descidas havia uma doçura tão profunda, que se sentia bem que o seu anjinho estava a sonhar com as fadas de algum conto, onde, como êle às vezes lhe contava, a boa fada tinha a cara dela, e olhava e beijava como ela. Tudo corria bem. P'ra que assustar-se? Os seus nervos, afinal, só os seus nervos! E ao voltar-se de novo para a noite, teve remorsos de ter medo dela, de ter desconfiado loucamente que êsse luar de perdão espargelado fôsse um scenário infame de traição, contra aquela flôr—a pobresinha! que era seu filho e Deus ia salvar.
Voltou p'ra junto da vidraça, ainda trémula, a sossegar nesse esplendor silente. O luar avançava sempre e sempre. Já lhe doirava agora os olhos razos, o cabelo, a testa, o corpo todo. E com uma idea súbita rezou. Não podia dizer a quem rezava, se{73} rezava a Deus ou ao luar... Mas Deus era o luar, era o luar... E agora estava certa, estava certa de que êle vinha p'ra curar o seu filhinho, e envolvê-lo todo p'ra sará-lo como um beijo de Deus a essa criança.
Pôs-se em bicos de pés o mais que pôde, e com um gesto feliz, misterioso, corria os cortinados de mansinho, p'ra que êle chegasse mais depressa junto ao leito, a sorrir e a chorar, tôda contente. Êle vinha, êle entrava sempre e sempre. Estendia-lhe as mãos como a chamál-o, as suas mãos de mãe, de veias altas, que um dilúvio de amor intumescera. Já despertava os móveis, seus amigos, a que ela queria como a confidentes. E doida de feliz, quási riu alto ao ver-se no espelho enluarado. Dizia-lhe baixinho: «entra, entra...» Já a cadeira de braços estava empoada e a trama florida do tapete ressuscitava em gamas sonolentas. Se até vitalizava as coisas mortas! Era Deus, era Deus êste luar... E que sossêgo agora, que sossêgo!... Até a bica do tanque se calara. Havia uma atmosfera de{74} milagre, o seu sonho de mística era certo. Os seus pressentimentos não mentiram. Era um destino sagrado, o pequenino. Por isso Deus descera no luar: era êle, era êle, estava ali... Isto era bem verdade, era a verdade. Mas então o seu filho estava salvo! E desatou a rir perdidamente, num timbre de histeria muito sêco.
De repente lembrou-se: o luar era Deus: não devia pisál-o, era um pecado... Fugiu então p'rà zona ainda escura, olhou o pequenino adormecido. Pareceu-lhe que sorria extasiado. Sentiu uma alegria semi-louca, um excesso de esperança a sufocál-a. Por fim ajoelhou-se junto ao leito, chamando-o com as mãos, lavada em lágrimas; mas rindo sempre, sempre, a segredar-lhe: «Entra, entra, entra...» Êle vinha, êle vinha, muito fluido, de cada vez mais branco, mais divino. Debruçou-se então, beijou-lhe a orla. Ergueu-se a radiar, transfigurada, com os olhos histéricos mais vítreos e um riso em aro, descobrindo os dentes, numa beatitude arripiada. Foi esperar o luar do outro lado,{75} as mãos nas grades da cama, à cabeceira. Êle dormia sempre, o pequenino, uma mão escondida no pescoço, a outra sôbre a dobra do lençol. Curvou-se para ver onde o luar vinha. Mal conteve um grito de ventura. Tocava os pés da cama: ia subir!... «Sóbe, sóbe, sóbe» ia dizendo. O seu pobre coração endoidecera: despedaçava-lhe o peito, de feliz. Premiu as fontes com as mãos: «lá vem, lá vem. Bemdito seja Deus, sempre bemdito».
Havia um clarão no couvre-pieds agora. Uma larga lágrima, redonda, foi lá rolar como uma grande pérola. Nesse instante ouviu como um gemido. O pequenido mexia-se, acordava. Levou as mãos ao peito, despertou. Mal se viu o veludo dos seus olhos... Quis erguer a cabeça, descaíu-a. A mãe vergou-se sôbre êle: «meu filhinho», pôs-lhe as mãos em caricia sôbre as fontes que um suor muito frio perolava, e ia beijál-o, quando ouviu três vezes, como um fio de voz, já muito longe: «mamã, mamã, mamã...» E fechou p'ra sempre os seus{76} olhos febris de grande génio triste depois dessa palavra suprema que era tôda a sua fé.
O luar chegara emfim à cabeceira!
Só quando êle esfriou sob os seus beijos, só quando viu os braços que lhe erguera, para que Deus o visse de mãos postas, implorando-lhe vida, o pequenino!—recaírem inertes sôbre a roupa, compreendeu o crime, o crime imenso.
—Vinha no luar a Morte... no luar...
Voltou-se então num desespero último, p'ró expulsar, p'ró pisar sob os seus pés: depois reanimaria o seu filhinho: dar-lhe-ia a beber todo o seu sangue. Mas ficou paralítica de assombro. O luar alagara todo o quarto: água lustral de lua, alma de lua, no chão, no ar, em tôda a parte... O seu sangue gelava-se nas veias. Não podia lutar, era impossível. Êle invadira a alcova, asfixiara-a. Estava tudo perdido, tudo, tudo... Abriu os braços, hirta, inteiriçada, e caiu ao desamparo, sem sentidos.{77}