A JUSTINO DE MONTALVÃO
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[O Homem das Fontes]
Chama-se Harry Young o homem das fontes. Vi-o a primeira vez em Granada no Paseo de los Tristes, ao pé de uma fonte árabe já morta. É um rapaz alto, de um loiro muito claro, maneiras simples que revelam raça, olhos de névoa calmos e abstractos, e uma voz estranha, monocórdia, ou p'ra dizer melhor, uma voz de água. Nasceu em Londres. É rico. Sem família e sem lar, vive em perpétua viagem. Encontrei-o em Roma, em Constantinopla, em Florença, e, detalhe que me feriu intensamente, desenhando, escrevendo ou só olhando, sempre junto a uma fonte, concentrado,{80} como se fôsse a caricatura fabulosa que o encantamento de uma ninfa ali prendesse.
Harry Young chegou a obsidiar-me. Nunca porêm, pensei em ir falar-lhe, recorrendo ao impudor tradicional que se tolera sempre aos que viajam.
Uma manhã, em Florença, tive quási a impressão de que era um louco. Cedo ainda, seriam cinco horas da manhã, fui p'rà Piazza dela Signoria encher-me de sadismo estesiante a olhar na Loggia o Perseu de Benevenuto. Tem, como sabem por centenas de gravuras, uma fonte desenhada por Vasári à sombra ameada do Palazzo Vecchio. Caía uma luz melodiosa. Harry desenhava, um caderno de apontamentos na mão fina. Um esbôço da fonte, era evidente.
Àquela hora só havia pombas no silêncio irreal da praça. Discretamente, pus-me a olhar tambêm a fonte. Ao centro, o Neptuno de mármore é boçal; há uma ronda de ninfas alongadas num bronze de patine quási azul; os cavalos marinhos saltam na água e os tritões que cercam tôda a taça{81} tem a alegria de quem vive na água, uma beatitude cínica e animal, espirrando das máscaras de bronze por fossetas de riso, bocas ébrias, em verve muscular, em gestos vivos. Os dorsos luziam de água esparrinhada, e de estátua p'ra estátua voavam pombas fazendo em roda aquele adágio de asas que à pôpa dos navios, no mar alto, riscam os voos curvos das gaivotas. Não podia saborear aquela paz, com um desejo único a morder-me: ver o que Harry Young desenhava.
Êle fixava a fonte alguns instantes, e antes de transcrever o que colhera, quedava ainda imóvel, recolhido, numa aura de emoção mais do que estética, que me parecia absurda, incompatível com um esbôço num álbum de viagem. Ao lado, em frente à estátua de Cosme de Médicis, criados sonolentos iam dispondo as mesas nas terrasses. Já havia dois cafés abertos onde gente apressada ia beber. Harry, que continuou alheado ainda algum tempo, foi por fim sentar-se a uma terrasse, e bebendo um copo de leite{82.} lentamenle, tinha o álbum aberto sôbre a mesa dando os últimos retoques ao desenho.
Quem era esta criatura que só o encanto das fontes interessava, e que em Florença, como em Granada, como em Córdova, nunca vi num museu ou numa igreja, como se só o granito ou o mármore das fontes tivessem para os seus olhos estesia? Que sensibilidade aberrante, que destino fadara p'rò convívio enigmático, p'rò segrêdo embalador das fontes, êste rapaz, que não tinha ainda trinta anos, era decerto rico, bem nascido, e nem via mulheres nem paisagens, absorto neste claro misticismo?