Disse-me então o seu amor às fontes, baixando um pouco a voz, quàsi em segrêdo.

Era órfão. Nunca quis conviver com os seus parentes, onde, por razões que depois soube, só encontrou um acolhimento frio, como se fôsse um estranho, sem ternura.

Tinha uns nervos doentios que o isolavam. Dos seus tempos de colégio não guardava saudades mas só ódios, à grosseria vulgar dos camaradas, à promiscuidade forçada e torturante p'ra uma sensibilidade como a sua. Logo que chegou à maioridade, rico e só, foi visitar nos arredores de Londres o castelo em que seus pais viveram. Correu o parque, as salas, as estufas. Viu ainda o seu berço, os seus brinquedos, onde um pó sem saudade ia caindo, como sôbre coisas velhas num museu.

Passou no quarto de sua mãe algumas horas... Sentiu uma tristeza imensa em que tudo lhe parecia hostil: os móveis, o ar, um cheiro a morte, até os olhos fitos dos retratos... O seu primeiro desejo de homem livre fôra essa visita com que tanta{88} vez sonhara, e saía de lá desamparado, com uma espécie de desespêro inerte que tôda a casa lhe contagiara: a velhice das coisas sem beleza onde viveu alguêm que nos foi querido e que perdem com a côr tôda a memória. Esses muros sem alma angustiavam-no. Já atravessava o parque p'ra sair quando ouviu a chamá-lo uma voz de agua. Era ali perto e pareceu-lhe bem distante, vinda da sua infância já tão longe. Emfim alguêm amigo, acolhedor! Foi p'ra ela como iria p'ra sua mãe ressuscitada, e ficou a ouvi-la até à noite. Abrira-a o jardineiro emquanto êle percorria as salas. Harry contou-me:

—Tive a visão de um lar naquele instante. Aquela pobre fonte sem beleza consolou-me como uma mãe, beijou-me os olhos.

Acarinhou-me como a irmã... que nunca tive, como a noiva que decerto não terei...

A sua água encheu-me de saudades. E ao pensar nas salas que deixara, tudo me comoveu, ali, a ouvi-la: os olhos dos retratos já me olhavam... os tapetes, os móveis, as paredes, tinham linguagem agora: compreendiam-me.{89} As janelas á névoa, eram olhos tão rasos como os meus. E como poisavam pássaros na pedra, eu mesmo fui buscar pão p'ra lhes dar, espalhei muitas migalhas pela fonte... Senti a vida tôda no meu peito. Vem dessa hora o meu amor às fontes.

Harry erguera-se. Seguíamos pelo Corso lentamente. Pedi-lhe então que me mostrasse os seus desenhos, os símbolos de fontes que creara.

—Só se quiser vir comigo ao meu hotel.

Já tenho as malas feitas p'ra partir. Vou p'ra Veneza. Veneza é um hospital de águas... Faz-me triste.