O quarto de Harry no hotel de Londres, Piazza d'Espagnia, tinha entre duas janelas um piano. Estavam abertas à noite, que em Roma parece mais arqueada, como p'ra receber melhor as confidências. A torre della Trinitá del Monte deu onze horas. Naquela paz não éramos só dois, porque subia da praça, propiciando, a voz da fonte{90} de Bernini, la Borcáccia, a escoar-se sem jactos, brandamente. Harry acendeu as serpentinas sôbre a mesa. Vi então dois álbuns grandes de viagem, e alguns pequenos mais esguios.

Começámos a folhear num dos primeiros a imaginosa notação das fontes árabes: de Córdova, de Granada la vieja, a terra andaluza de mors-amor. A fonte morta do Paseo de los Tristes, onde pela primeira vez eu vira Harry, era um cadáver de almeia; e havia ainda outra de Granada, que eu toquei no jardim de Lindaraja, onde a princesa agarena vive ainda com uma côrte calada de ciprestes...

O desenho de Harry dava-me dela uma visão patética. Evocava-a nova, musical, nesse jardim interior da Alhambra—jaula feérica da luxúria árabe, onde os corpos morenos das almeias elanguesciam nos mármores dos pátios, e nas salas de jóias lapidadas dormiam com os perfumes dos jardins as grandes séstas tórridas, de cópula...

Desenhára o mirador de Lindaraja, com{91} as suas gelosias marchetadas que ela entreabria um pouco, debruçando-se, como p'ra ouvir melhor a voz da fonte. E a fonte falava de desejo, porque ela tinha nos olhos, nos cabelos, na bôca a entumescer, nas linhas sôfregas, a expressão de uma corola ao cair do pólen... Dos desenhos que vi das fontes turcas, um entre todos me maravilhou: a do sultão Ahmed, em Stambul, no coração da praça do Serralho. É um lindo harém de grades redoiradas, arabescado de oiro e lápis-lazuli, de que a água é sultana única.

Harry representara Schehèrezade, a noveleira das Mil noites e uma noite. Essa era bem um símbolo de fonte, que durante mil noites e uma noite, a contar histórias sôbre histórias, adormeceu o califa que a matava se a sua voz lhe não fechasse os olhos... Foi um destino de fonte Schehèrezade.

Havia fontes de parques e de claustros: a primeira era uma Belle au bois dormant que um pavão heráldico velava; e entre as imagens místicas que vi, apenas lembro uma{92} carmelitana, lendo sob uma ogiva, côr de cera, decerto Santa Theresa, Las moradas... A última, porém, a mais estranha, de não sei que vila romana ao abandono, era uma grande esfinge tumular com asas mortuárias de falena. Recordo ainda páginas isoladas: a fonte dos cavalos marinhos da vila Borghése era um Pégaso de crinas alagadas, uma cabeça de cavalo grego, dêsses que nos versos de Homero viviam irmãmente com os heróis. E não sei que fonte mitológica—uma estátua de Juno, sereníssima, a cabeça nimbada de andorinhas.

O outro álbum era de esboços—desenhos e maquettes,—tôda uma arquitectura fragmentária p'ra um palácio quimérico da água, num poético parque, inverosímil como o de Poë no Domínio de Arnheim.

A maior parte dos desenhos eram vagos, dizendo a embriogenia dêsse templo que Harry erguia à Água Padroeira, com beatitudes de arquitecto místico, em linhas-versículos de sonho.{93}

Perguntei-lhe se tencionava construi-lo. Harry sorriu.

—Construi-lo e habitá-lo... Com Miss Fountain... se a encontrar um dia.