O desenho mais minucioso era a fachada, feita de duas arquiteturas sobrepostas: uma estável, de mármores rosados; outra móvel, música, espumante, de milhares de tranças de água de essas fontes, cavadas em motivos decorais no sonoro frontão religioso que viveria um dia tão beijado como as asas do mar no temporal.
É impossível descrever-lhe as linhas, como é impossível descrever a Alhambra. A fachada de mármore era subsidiária da segunda, a real, a litúrgica, a aquática; era o seu esqueleto quási oculto, e por milhares de ranhuras invisíveis, de declives matematicamente calculados, por bôcas inflectindo em curvas gráceis, por biliões de crivos capilares donde cairiam chorões de prata fluida, destinada a dar vazão a essa segunda, arquitectura sinfónica, hino vivo, que o meu tritão exilado ia criar.{94}
O mármore apparecia, sob a trama arquitectural da água golfante, como através de rendas de Burano um colo ou uma nuca de mulher, e intumescia às vezes como um seio no bôjo de uma ânfora sveltíssima ou na escultura de uma planta de água.
Oh! que feliz a carne dêsse mármore, escrava de uma fluida arquitectura, cantada e beijada todo o sempre! Jactos cruzavam-se como na argentaria solar de uma panóplia, caíam numa taça canelada, donde escorriam molemente, em lágrimas, p'ra renascer vivendo noutros sulcos, donde espirravam como flores se esfolham, em graças platerescas, em sorrisos.
Contra o sol, as janelas, os balcões, tinham estores de longos fios de água, tamisando a luz pr'ò interior em irisações fantásticas de nave. Mas, como Harry me fêz logo notar, o seu projecto, perfeitamente realizável, era um ensaio de arquitetura musical. A euritmia dessas linhas de água, tantas volutas líquidas que eu via no amoroso desenho daquele álbum, não tinham só{95} um fim arquitetónico, antes eram a consequência imediata, o instrumento de beleza necessário, pr'á ópera da Água revelada por um arquitecto-músico de génio. Mostrou-me então a partitura do palácio. Sentou-se ao piano e tocou-me alguns motivos.
Como tôda a gente no hotel dormia, executava em surdina, emocionado. Primeiro o leit-motiv da entrada, cantado no peristilo por três fontes, com três taças de prata cada uma. Era a ogiva elegantíssima da entrada (duas curvas angulares de água jorrante em conchas de alabastro quási ocultas) que acompanhava as três vozes argentinas. Harry chamava-lhe: o motivo de saudação.
Depois tocou-me a sinfonia da fachada. E foi então que ouvi a alma transcendente dêsse tristão-poeta desterrado! E Harry dizia, crispando as mãos numa impotência de nervoso, que era impossível mimar sôbre um piano a fluidez dionisíaca das frases. Os graves e os agudos conseguiam-se por diferenças de calibres, indo de uma tenuidade{96} capilar até aos cilindros de maior diâmetro, às bocas, divertículos, ampolas, com recôncavos e inflexões previstas, num duplo intuito ornamental e acústico.
A gama das resonâncias era imensa, indo dos acordes dos mármores e alabastros até aos timbres dos metais mais ricos, dos bronzes, pratas foscas, claros oiros, com espessuras várias nuançando, imbutidos nos mármores da fachada, enriquecida assim com côres de jóia e os tons sobrenaturais de um órgão de água. Oh! essa sinfonia! Reouvi-la e, meu Deus! prazer supremo, ouvi-la e vê-la, se um dia o templo da Água fôsse vida!
Três melodias fugadas corriam a fachada sem cessar. A que vibrava ao centro tinha timbres mais finos e mais altos, os jactos erguiam-se mais, implorativos, antes de recaírem em vertigem, nos dois focos de resonância decoral. Era uma prece indefinida e dava ao templo como uma aspiração de agulhas góticas, a expressão decantada, musical, que teem as mãos erguidas das{97} Ogivas. Harry chamava-lhe: a ânsia de ser nuvem.
Os outros dois, visualmente, fundiam-se em sinuosidades expressivas, em caprichos de linhas reticentes, e fiando a mesma clara rêde, eram, musicalmente, bem diversos. Harry chamava-lhes: a alegria de morrer sorrindo: a saudade dos rios, das nascentes. E os três deliam-se numa polifonia liquescente em que a ânsia de ser nuvem tinha o patético de umas mãos erguidas; a alegria de morrer sorrindo lembrava a vida e morte das espumas; e a saudade dos rios, das nascentes, nas conchas e recôncavos de mármore revestidos dos bronzes mais espessos, dizia em acordes quasi cavos o desespero da água outrora livre, domada e orquestrada sabiamente: a nostalgia do coração das rochas vivas, dos açudes, dos campos cultivados que ela regava a chalrar nos sulcos largos.