Nos três lados restantes, a decoração musical era mais simples: baladas de ecos sem memória instilando um esquecimento{98} de magia. Inútil descrevê-las: impossível. Ante o imprevisto desta arquitectura, Harry compreendendo o meu espanto, mostrou-me, em cadernos atulhados, a notação musical minuciosa, em que as vozes de milhares de fontes tinham sido por êle copiadas, e outras de ensaios que realizara até poder compor a partitura dêsse palácio feérico da Água.

O seu esfôrço agora, a sua obsessão de cada instante, era, estudando a hidráulica e a acústica, chegar a harmonizar a arquitetura, que lhe parecia pouco bela ainda no mármore, com a beleza musical e plástica da arquitetura líquida exterior. Trabalhava com febre, dia e noite.

Mostrou-me ainda detalhes interiores. A Galeria da Meditação tinha vitrais historiando os mitos da Água: ao largo da laguna veneziana, o casamento do Doge com o Adriático na galera de sonho o Bucentauro; Ophélia louca, o cabelo como um chorão de fios de oiro, apartando com mãos de prata fosca os canaviais orando à{99} beira-rio: sereias penteando-se ao luar com medusas nos seios gotejantes...

No chão de pórfiro, um tapete esmaecido de reflexos. E nas paredes nuas, como se pendurasse as telas de algum mestre, Harry cavara duas fontes pequeninas, num tingling lacrimal, beijante, clepsidras a viver fora do tempo... Ali iria meditar e ler.

Era evidente porém que o seu palácio só podia existir no isolamento.

Disse-me então como teria de murá-lo, defendendo-o do vento, concentrando-o. Alêm das grades balizando o parque, cinco muros de árvores concêntricas, por ordem de alturas decrescente: a grisalha colossal dos eucaliptos, o veludo dos cedros, choupos góticos, ciprestes tutelares, e em vagas meigas, as cabeleiras sôltas dos chorões... E seria num vale agasalhado.

Harry empalidecia de emoção. Detestava viajar, o convívio forçado dos expressos, a promiscuidade dos hotéis, dos restaurantes. Só por as fontes se fizera vagabundo, para as ver, pr'às ouvir assimilando-as, e poder{100} executar um dia o seu palácio—síntese de todas.

O entusiasmo de Harry contagiou-me. É possível que amanhã não seja assim, que dêste plano de arquitectura musical que antevejo e anteoiço emocionado, no contágio febril que me vem de Harry, me fique a idea de um projecto fruste, de uma alucinação de hiperacústico, com uma forma de loucura poética só como documento, interessante.

O templo da Água é para a vida dêste sensitivo, sob uma forma íntima e discreta, a minúscula visão quási infantil, a creancice lírica encantada em que êste poeta semi-louco e ingénuo tenta exprimir em linguagem de arte, com a arquitectura e a música por meios, tudo quanto na terra deslumbrou a sua alma de tritão éxul.

Se amanhã analisar êste projecto longe do seu contacto perturbante, talvez eu reconheça a inanidade de todo o seu amorosíssimo trabalho, mas sempre com emoção hei-de admirá-lo, porque teve uma paixão e se lhe entrega, sem nenhuma restricção,{101} de todo o corpo, e arde nessa febre dia a dia, abandonando tudo, belo e rico, por uma vida nómade, de acaso, que o fará morrer ao desamparo no hotel dálguma terra onde haja fontes, ainda fiel a essa visão de sempre, sorrindo ao seu palácio em cristais múrmuros...