O palácio da Água!... «Construi-lo e habitá-lo com miss Fountain se a encontrar um dia...» Eu cuido ver essa beleza de água tal como vive nas pupilas de Harry. Tem uma voz de água, os olhos de água, uma alma de água, clara, imperturbada, e um desejo, um sensualismo de água, envolvente, fluido, esquecedor, como um nirvana de água inexgotável.
Sem o fermento de nevrose que o desvaira, com faculdades criadoras coordenadas, Harry seria talvez um grande músico, um encantador, um mystico dos sons, como fragmentariamente o revelaram as estranhas composições que agora ouvi. Ou, quem sabe! um arquitecto novo, musical pela assunção das linhas, sem recorrer, vesánico, quimérico,{102} às impossíveis sinfonias da água onde os seus olhos pálidos, de névoa, cuidaram descobrir todo o destino.
Ao ouvir-lhe a voz meíga, monocórdia, já começo aqui mesmo a duvidar, e penso no que seria o desespero, a irremissível catástrofe dêste homem, sem família, sem noiva, sem amigos, condenado a um absoluto isolamento por uma sensibilidade hiperaguda, se viesse um dia a convencer-se de que era uma loucura essa chimera onde fechou o futuro a sete chaves.
É certo, é natural que isso suceda. Que sabe êle de hidráulica, de acústica? Nem sequer tem uma educação profissional, e era forçoso, p'ra admitir como exequível êsse plano, que êle fôsse um arquitecto extraordinário, um músico revelador de novos meios e um engenheiro único, de génio.
E assim mesmo, pois que o drama musical de Wagner é, na sua beleza de vertigem, a mais victoriosa das derrotas, condenando pela voz dêsse homem-deus tentativas quaisquer de fusão de artes, não era mais que{103} certa, irrevocável, a falência total do sonho de Harry?
Êsse supremo aro de unidade, fervorosa obsessão de todo o artista, é um prodígio interior, não se exterioriza, e só com uma genialidade adivinhante, se realiza por um meio único (literatura, música, pintura) a obra-prima contendo em potencial, englobando em sugestões latentes, domínios que pareciam de outras artes.
Se ao menos pudesse conviver com êle e canalizar tão bellas qualidades p'ra qualquer coisa de viável, de fecundo! Queria evitar que a sua vida se partisse como uma lufada de vento quebraria aquela arquitectura em pratas de água, como um sistema arterial de sonho. Mas é esta a primeira noite que falamos e é decerto a última tambêm.
E depois, como poderia desviá-lo, por que paixão substituir esta paixão, êste culto das fontes religioso?...
Lembrei-me então do mar, todo o meu culto. E voltando à sinfonia da fachada, comecei a dizer que um dos motivos—a alegria de morrer sorrindo—me{104} fizera, ali na paz de Roma, uma saudade imensa do meu mar. Harry fixou-me. Parecia constrangido.
—Gosta muito do mar, não é verdade?