Harry calava-se, interdito. Senti então entrar pelas janelas, como uma onda de silêncio que arrolasse, a paz de Roma prenhe de memórias... A fonte de Bernini ouviu-se mais: dir-se-hia uma voz de ama milenária a acalentar fantasmas com terror...
Ao ver Harry perplexo, hesitante, arrependia-me da pergunta que lhe fiz, mas elle viu com certeza nos meus olhos a minha curiosidade, a minha ância. A sôbre-excitação daquele instante, até o facto de eu ser quási um estranho, a quem se faz mais facilmente confidências do que mesmo a um amigo ou a um conhecido, forçaram-no a falar, violentaram-no.
Respondeu-me com agitação de um modo brusco:
—O mar?!... Não posso suportá-lo, odeio-o, porque foi êle que perdeu os meus...{105} Compreendo-lhe a beleza, que é divina, mas não o posso ver, atterra-me, detesto-o...
Ainda hesitou. Depois, sem interrupção, vivendo as frases:
—Meu pai, que era um homem do povo, viveu doze anos com êle e adorava-o. Era piloto. Viajava p'rò Norte quási sempre. Filho de marinheiros, tinha nas veias o amor do mar. Foi de volta da Islândia, a bordo do Baltic, que pela primeira vez viu minha mãe. Teria ela então dezassete anos.
Meu pai, ruivo e forte, tinha uma beleza viril, impressionante. Ela, já então órfã, viajava com meu tio, um velho estranho, que só as viagens por mar interessavam. Era bela (tirou uma fotografia da carteira) imensamente bela, não é verdade?
Tinha uma índole exaltada, romanesca, que o hábito de realizar todos os caprichos levou a um despotismo singular, de perversão nervosa, de histeria, e ao menor obstaculo, com acessos de chôro e grandes febres. Meu tio era o tutor, e longe de a reprimir, estimulava-a mais, lisonjeando-a, com{106} uma adoração de spleenético alcoólico por aquela andorinha semi-louca. Mesmo a bordo, quando começou a amar meu pai, ela ia fazer-lhe confidências, contar-lhe os sobresaltos dos seus nervos, e êle ouvia-a com uma indulgência de ternura e talvez mesmo com uma ponta de sadismo. Mas não quero aborrecê-lo com detalhes.
Contra a vontade de todos, apenas ajudados por meu tio, cujo spleen se comprazia neste drama, os dois casaram, depois de uma côrte romanesca que alucinara de paixão meu pai. Minha mãe teve uma exigência única, mas que era para êle a mais cruel: abandonar a vida de bordo para sempre. Estava tão doido, que a aceitou sem compreender, pálido como se lhe arrancassem tôda a alma...
Na véspera do casamento, foi a bordo do Baltic despedir-se. Abraçou os companheiros um a um, e andou horas a bordo, como um náufrago, como um cão sem dono, os olhos rasos, a dizer adeus ao seu navio. Toda essa noite passou-a a errar no pôrto.{107} Ninguém diria que aquele vagabundo tinha uma noiva aristocrata, bela e rica, e ia casar já na manhã seguinte.