A caminho da igreja, sentia uma alegria lúgubre, uma felicidade exasperada, como um travo de remorso do mar longe...
Depois veio a vertigem. Durante dois anos, esqueceu o mar, esqueceu tudo nos olhos verdes de minha mãe como num álcool. Viviam um do outro, sem convívio, num castelo dos arredores de Londres, que meu tio, ainda em vida, lhes doou. Havia no amor dêle a minha mãe devoções de plebeu por um ser de raça, e o sensualismo de um marinheiro, moço e forte, com longos períodos de abstinência no mar largo, por um corpo de pétala, serpentino, enlaçando com braços e perfumes...
No amor de minha mãe havia bastante de perversão histérica. Sabia como êle evitava falar do mar com uma espécie de pudor religioso. Um dia mesmo êle pediu-lhe de joelhos que não lhe lembrasse a promessa que fizera, que não falasse do mar{108} diante dêle. E a cada instante, em horas íntimas, quando passeavam no parque, nas estufas, nas grandes noites de invernia e chuva, ela aludia em frases reticentes onde adejava o espectro do mar longe. Tinha a volúpia de o martirizar. E quando o via bem amarfanhado, caído como uma coisa ao desamparo, p'ra cima de um estofo, a mascar raivas, erguia-se mais linda que um tanagra e ia beijar-lhe os olhos, dar-lhe a bôca, endoidecê-lo de amor e de luxúria.
E viviam assim meses e meses. Nem uma visita. Ninguêm. Raro saíam. A vida mundana não interessava minha mãe. Tinha-a vivido febrilmente e esgotou-a com uma precocidade de nervosa, que tudo interessa e aborrece em pouco tempo. Depois, ainda por orgulho. Tendo feito um casamento desigual, não queria humilhar meu pai nem humilhar-se.
Havia nesta vida de desejo de dois seres tão diferentes e isolados qualquer coisa de feroz, de criminoso. Dois instintos presos por amor, na mesma jaula de oiro, dia e noite...{109} Enervavam-se um ao outro. Enlouqueciam-se.
Tenho em Londres uma fotografia de minha mãe por êsse tempo. Emagrecera. Lembrava um ser patético de Shakespeare. O seu temperamento de histérica requintava, em perversões subtis, quási em loucuras. Torturava meu pai continuamente, dando-lhe a visão do mar a cada instante, por sugestões que iam atormentá-lo, evitando contudo falar dêle, com uma hipocrisia que era mais cruel do que seria uma alusão bem clara. Nas salas havia paisagens de mar por tôda a parte... E por cima das mesas, dos sofás, como uma obsessão de crime, sempre e sempre, livros, romances e gravuras, com narrações de mar, sempre com o mar...
Até as músicas que tocava ao piano. Dizia-lhe: anda «ouvir como isto é lindo!» E êle encostado ao piano, junto dela, via os Lieder de Schubert já abertos numa página marcada. E lia: O mar!...
Depois que eu nasci, a nevrose de minha{110} mãe, longe de se calmar na maternidade, exasperou-se. Os dias para os dois eram enormes. Passavam horas junto do meu berço, inventando-me encantos, a adorar-me. E como me dizia a velha Jenny, por quem eu soube tudo o que lhe conto, dir-se-ia, naquela solidão envenenada, que cada vez se desejavam mais, se bebiam com olhos mais sedentos, com um amor que era uma espécie de ódio.
Tudo isto passava-se sem gestos, sem levantarem a voz uma só vez.
A virilidade impulsiva de meu pae caía dominada ao ouvir-lhe o andar. O ruge-ruge dos vestidos dela fazia-lhe um terror voluptuoso. Estirava-se aos pés dela muito tempo a beijar-lhe os sapatos, marasmado...