Era dum camarada íntimo de bordo. Toda a tripulação o abraçava; mandavam-lhe do Baltic saudades... Pareceu-lhe então que o seu navio, o seu pano que tanta vez ferrára, vinha naquela noite de Janeiro, dizer-lhe o ultimo adeus da vida a bordo, das grandes rotas pelos mares de névoa, das veladas na ponte a todo o tempo, dos sonos bons depois no seu beliche, pequenino e estreito como um berço... Rolavam-lhe as lagrimas dos olhos.{114}

A Jenny, que andava inquieta e os vigiava, muita vez me contou essa noite ultima.

Chovia imenso. Ela mesma lhes serviu o chá. Meu pai, como de costume, bebeu gin. Mas nessa noite foi brutal o que bebeu. Minha mãe, com uns olhos de aura histérica, dava-lhe as mãos a beijar, encorajava-o...

Já tarde, ergueram-se. Jenny foi ajudar a despir-se minha mãe. Êle seguiu devagar pelo corredor e abriu a janela tôda à noite negra... Ficou assim algum tempo a olhar o vago, com a cabeça nua, à chuva e ao vento...

Depois, bruscamente, foi pr'ò quarto. Com um tremor de alcoólico nas mãos, foi a um armário de que nunca se servia, e começou a tirar roupas de bordo, atiradas há três anos para ali como coisas inúteis para sempre. Pôs-se então a vesti-las febrilmente: japona de oleado, botas altas, na cabeça o sueste... Como a bordo. Viu-se ao espelho. E ia a sair, quando voltou p'ra trás.{115} Qualquer coisa lhe faltava. Procurou no armário, procurou... Era a faca de bordo, numa bainha de coiro já puído. Pô-la â cinta e partiu com um andar mais firme, resoluto, como se a bordo, fôsse fazer um quarto em noite má.

Outra vez seguiu pelo corredor, até ao quarto de minha mãe, que o esperava. Sem bater, entrou: parou a olha-la. Tinha os cabelos desfeitos, muito branca, num robe-de-chambre que abriu ao vê-lo entrar. E com o colo nu perdeu-se a rir...

«Vaes p'r'ò mar, meu amor? Deixas-me só?...»

P'rò mar! P'rò mar!... Pela primeira vez há já três annos, espantado de se ouvir, da sua voz, repetia o nome sortílego, supremo: «P'rò mar!» com uma inflexão pueril, quasi idiota.

A lenha crepitava no fogão. Ouvia-se chover cada vez mais.

—«Estás vestido p'ra bordo... Estás já pronto...»