Sinto no corpo todo a carícia opiada dos seus dedos, a sua carne sortílega, embruxada; a sua pele afim da minha, e que com ela dialogava em silêncio, nas horas de esgotamento, rememorando sensações agudas, fulgurantes...
Vejo-a, vejo-a!
Passa a teoria das nossas noites (em que os seus tics profissionais me confrangiam) e ela era sempre duma envolvência fluida, de uma estesia de actriz inconsciente, uma{135} viciosa triste, insaciada, e uma boa e uma pobre rapariga.
De comêço podiam julgá-la artificial, tão estilizada era a sua graça, tanto o seu requinte parecia consciente e erudito, traindo-se em tudo: no andar elástico, no dandismo sóbrio, e até no ruge-ruge da sua voz de alcova e confidência. Mas não: viam-na mal. Ela era assim sem esfôrço, naturalmente: ela nascera uma obra de arte. E todo o meu trabalho de esta noite me parece o de um doido que quisesse com poeira reconstruir uma obra prima...
Muitas vezes já, aludi ao seu cinismo. Mas entendam-me: cinismo, disse-o o forçado genial de Reading—é a coragem de dizer as coisas como são e não como deviam ser. E a Suze era assim, quando falava a alguêm que a compreendia.
Êsses porém, eram raros, muito raros. Com uma intuição divinatória, balzaquiana, a Suze adivinhava às primeiras palavras o seu caso, lisonjeava-lhe os instintos, e assim durante o dia era, conforme o macho em{136} catequese, canalha ou ducal, obscena ou protocolar.
Um dêles, com quem viveu muito tempo, não via na Suze um animal de vício em quintessência, e, estúpido, não lhe sentia a graça esparrinhando génio: era apenas sentimental e jogador.
Outra qualquer, para o prender, faria comédias românticas, e decerto orientaria o seu comércio por êsse fundo fadista e namorisquento. A Suze não. Parecia-lhe demasiado reles, insuportávelmente folhetim. E foi por o jôgo que o laçou.
Pouco a pouco, por sugestões dominadoras, foi-o convencendo de que ganhava sempre quando cedia passivamente aos seus caprichos, quando lhe dava mais vestidos, mais dinheiro: e em pouco tempo, ela era p'ra êsse jogador supersticioso, um ícone sagrado, tutelar,—Nossa Senhora da Sorte ao seu alcance...
Dominava-o por completo. Se o traía, explicava-lhe com um ar vago e superior... que era para lhe dar chance; e todas as{137} noites o desgraçado vinha implorar da Suze, aninhada num divan, com um pequenino ar de sibila delfica, um pouco de sorte por amor de Deus!...