As outras, são apenas fêmeas broncas presas à canga do lar animalmente, ou semi-loucas resignadas que um catolicismo castrador perdeu, ou índoles lunares de amorosas esperecendo de martírio e tédio. E consciente ou inconscientemente, todas vão afinal prostituir-se. Só a moeda diferere: nada mais.
Mas se viver, p'ra uma mulher, é quási sempre prostituir-se, não o é menos afinal p'ra um homem.
Prostituir-se é deformar, ou anular mesmo, o que em nós há de individual e caracterisante, pela necessidade de captar alguêm, patrão ou mestre, rico ou superior hierarquico, e até mesmo o pobre, que nos dá a ilusão de sermos bons e a consideração hipocrita dos outros.
Cada um de nós, ao entrar na aula ou na oficina, no escriptorio ou na repartição, no salão ou na taberna, é postiço, é convencional, é um outro; ao princípio confrangídamente, através de mil torturas; depois inconscientemente: mecanizado, deformado,{133} quinquilharia andante e cérebro de lixos, contribuindo assim para êsse ideal que nos empala, e os moralistas chamam—solidariedade humana.
Era fácil mostrar como, violentando o temperamento, esta prostituição se repercute até nos gestos, na nossa maneira de andar e de vestir. E isto em todas as classes, porque ninguêm é suficientemente forte p'ra se bastar a si mesmo; todos precisam da consideração dos outros, da opinião pública, e vão vivendo sob a garra do preconceito, que os desengonça e deforma, que os raquitiza e anula, como os saltinbancos às crianças.
Quantos resistem íntegros ao regímen penitenciário que é a vida de hoje em sociedade? Alguns pelo isolamento;—bem poucos dos que ficam.
Não riam portanto ao ouvir que a Suze, a minha pobre Suze, foi nobre e foi cocotte. Cocotte, sim. Como nós todos. Porque, em summa, eu sou cocotte, tu és cocotte, êle é cocotte...{134}
Que horas serão? Deve ser quási madrugada.
Eu bem queria nestas palavras de febre, silhuetar a Suze, ter um pouco de método, monografá-la. Mas não posso, não posso.
Tenho aqui na minha mesa de trabalho o seu retrato, e nem sei como tenho coragem p'ra escrever, como posso desviar os olhos da névoa abysmal dos seus, que me transem de irremediável e me enlouquecem de desejo. Desejo absurdo, que o impossível hiperestesia, e me impregnou celula a celula.