E em sub-título, dum chic transcendente:—ensaio sôbre a supra-mulher. Dir-se-ia no futuro:—isso é um detalhe, como outrora se disse:—penso, logo existo, como hoje se diz:—o homem é uma ponte p'ró Sôbrehumano.{130}

Se Eça de Queiroz fôsse ainda vivo, eu que nunca o conheci, havia de apresentar-lhe a Suze, e juro, juro, que a acharia bem mais subtil, bem mais complexa e humanamente fascinante, que o seu extraordinário figurino—Carlos Fradique, dandy e epistológrafo.

Fialho, mais feliz, pôde falar-lhe; viu-lhe gestos que valiam maximas, e ouviu-lhe memórias e anedotas bem mais significativas que parábolas. Mas por mais que insistentemente lho pedisse, nunca escreveu sôbre ela: recusou-se.

Não posso eu, como quem empalha uma asa, amortalhar o génio da Suze em frases sabias, articular-lhe em sistema as formas tipicas, erguer emfim essa arquitectura metafísica, que ficaria na névoa das idades, como um farol p'ra sempre...

Não, não posso. Sinto ainda correr-me o corpo todo, em ondas lentas, o afago dos seus cabelos, dos seus dedos, que eram vivos, enervantes como línguas...

E não é assim, a arder em desejo postumo, que eu posso lançá-la à posteridade...{131} De resto, Suze, que era p'ra ti a posteridade? Um detalhe, um detalhe apenas...

Mas quero afirmar que nessa frase—que nem sequer p'ra muitos que a beijaram, foi mais que uma ironia sem estílo—se condensa o estoicismo, o galbo heroico, que fez desta parisiense tão estranha na sua vida de cocotte nobilíssima, uma neta espiritual de Marco Aurelio.

Foi nobre e foi cocotte. Não estranhem.

Viver, p'ra uma mulher, na sociedade de hoje, é qúasi sempre prostituir-se. Mesmo as que casam, e que casando amavam os maridos, quantas vezes não sofrem sem desejo, um cio incontinente, numa humilhação de prostitutas, até que tôda a emoção se lhes estanque e o hábito lhes embote o corpo e o espírito?...

Depois da primeira frase, em que a sêde de amor lhes doira a vida, quantas não reconhecem no convívio que o seu ídolo moral é um canalha, e que o amoroso é só o macho sordido, sem delicadeza, sem ternura—contundente, ferocíssimo, legal...{132}