Os cabelos impossíveis, abusivos, excessivos, caíam-lhe nos ombros; a robe empire era ampla e branca, as mangas vibravam em asas de serafim profissional... Era uma aparição de lenda rociada de agua Lubin—orvalho caro...
Quando depois mais de perto a detalhei, achei-lhe um não sei quê de transido, de parado, espécie de kakemono, espécie de bébé enorme, enigmatico, aflictivo, como só um{128} caricaturista-poeta criaria, num instante de emoção e febre, de quimera e riso. Pobre Suze!
Era pálida, pálida, no seu roupão de noite, sem as rosas do maquillage que ela tão subtilmente esmaecia. Pobre Suze!
Nenhum pintor português, desde o Grão Vasco, viu para além do real como tu viste, nem como tu transfigurou uma mascara de gêsso, patinada a lua, numa obra-prima irradiante.
Tu que eu agora vejo como um mármore de desgraça, arripiado, vestido à toa, sem maillot de sêda, sôbre uma mesa misérrima de morgue; tu que tens já talvez no ventre aberto o esverdear levíssimo com que a Morte agora te maquilha; tu que depois de tanto te venderes, cada vez eras mais tu e mais perfeita,—ninguêm irá junto do teu cadáver pôr-te o colar da Ordem do Desprêzo que na vida te deu beleza e estilo.
Foste um génio incompreendido, Suze. É o único ponto de contacto que tiveste com dezenas de idiotas que eu admiro.{129}
Mas não é isto o que me aflige, pois sei bem que se da Morte me ouvisses e se da Morte me falasses, mais uma vez me dirias a tua grande frase, a frase-medalhão, a frase-refrem, que tão sinteticamente define a tua graça, o teu génio, o teu vicio, o teu desdem:
—Tu sais, ça, c'est un détail.
P'rà Suze, tudo na vida era um detalhe.
Ela que se deu a saborear a tantos homens, duvido bem que conhecesse um ensaiista, espírito de síntese, à Carlyle, que emquanto eu nesta noite de insomnia a recomponho, com uma saudade sem esperança, friamente medite um grosso tomo, que deveria assim chamar-se:—A Filosofia de Suze (livro postumo).