Deixei de ir ao teatro. Achei a vida tôda tão imbecil como eu.
Até que uma manhã Just irrompe no meu quarto e preludia felicíssimo: «Foste um doido em não aparecer». Contou então: o empresário F. apresentára-o, e como eram duas e eu continuava incógnito, apresentou por sua vez o conde C., que ao menos não se arranjava mal.—«A tua, a do conde, chama-se Suzanne. A outra, a minha, é Gaby d'Anjou, é perfeita. Não sei se reparaste: um corpo grego. Ha uns poucos de dias que isto nem parece o Pôrto—».
E partiu num turbilhão de chance, dizendo apenas quási à porta, que a Suzanne era finíssima, e se tolerava o conde é porque não via melhor, e porque emfim, o Amieiro o não vestia mal.
Como mesmo escrevendo, estou morto por chegar ao quarto dela, direi já que almoçamos a sós dias depois, e nem sei mesmo{126} se comi, porque estendia as mãos em concha aos seus pés magros, p'ròs sentir crispar-se com luxúria ao ranger da sêda em fôlha sêca...
Foi rapido e simples. O meu amigo apresentou-me: o conde é lorpa, eu sou fino, ela é fina e... voilà!
Aqui começa a feitiçaria, o encantamento em que essa serpentina bruxa me colheu, polarizando o meu desejo p'rò seu corpo elástico e felino, como se as suas mãos de pianista me corressem na medula, e os seus olhos de névoa me perdessem em hipnose.
De corpo e espírito era flexivel como uma chama ao vento.
Horas e horas, com febre, com riso, com desespero, vasculho na memória, recomponho o complexo encanto dessa rapariga que sabia de cór tôda a Comédia Humana; tinha um vício pessoal, erudito, arqui-subtil; cinicamente ingénua, ingenuamente cínica; amoral e heróica, e que caminhava p'rò seu leito de cocotte com o ar redolente de Desdemona na canção do salgueiro...{127}
Oh! A sua canção do salgueiro, musica e versos de Bruant, como eu a trauteio ainda exasperado:
Les ch' veux frisés,
Les seins blasés,
Les reins brisés,
Les pieds usés.
Pierreuses,
Trotteuses,
Ás marchent l'soir
Quand il fait noir
Sur le trottoir.