(Mas assim, não consigo dizer o que ela foi. Preciso calmar a minha febre e começar pelo comêço).
Vi-a a primeira vez êste verão, no teatro, e logo a destaquei.
Os seus cabelos de criança escandinava, loiro cendrado e sêda palha em que havia reflexos quási brancos, tufavam na testa sob o chapéu preto, descaíam à esquerda, subiam à direita recortando a têmpora em ogiva; inverosímeis como raios de um sol de vício, quimicos, absurdos... Só depois me convenci que eram autênticos.
Os olhos eram claros, cinzento de agua em névoa; a máscara alongava-se num focinhito sonâmbulo; nariz incorrecto, quási grosseiro; bôca grande, acolhedora, de comissuras em pontos de interrogação; e o mento perdia-se na nuvem de tule de um{124} laço, esparso na gola impecavel de um costume tailleur azul.
Tinha muito da Sarah em nova: a cabeça de uma madona quatrocento em que vivesse a alma de Montmartre.
Acompanhava-a outra que mal vi, fisgado pelo estranho do seu tipo. Toda a noite, ferozmente, a encarcerei no meu binoculo e ela, exibindo atitudes de indiferença numa galeria intérmina, nem sequer teve o ar de ver-me.
Aborrecia-se com complacência, olhando sem fitar, cumprindo com resignação êsse destino de, sôbre uma platea do Pôrto, num barracão de Folies-Brégeiras, esfolhar a carícia exangue e lambedora das suas mãos de raça.
No meu grupo faziam-se hipóteses. Cocotte? Cançonetista? Talvez seja essa que se estreia amanhã.
Todos a achavam imensamente estranha e alguma coisa feia.
Quando à saída ela passou, compondo um ar abstracto e um passo ondeante de serpente-fantasma,{125} excitado e burro, disse não sei que frase escória e ouvi numa voz de sêda que range, esta coisa justa: imbécile!