[Suze]
Oh! dolce,
della soglia del lupanare
mirar le vergini stelle!—La meretrice di Pirgo—GABRIELE D'ANNUNZIO.
Não posso dormir. Como há mais de oito dias não recebi carta da Suze, e a minha absurda vaidade se recusa a crer que ela me esqueça, ponho-me a pensar, com uma perversidade triste, que tenho escrito loucuras a um cadáver.
Na última contava ela com uma coragem simples, como o mais fútil incidente, que ia entrar p'rò hospital p'ra ser operada. Anunciava-me isto, entre um projecto de vestido gris-taupe, que iria bem à sua tinta de viciosa pálida, e uma chuva de detalhes sôbre{122} a gata, a amar com romance e com luxúria um gato magro do terceiro andar.
Se tivesse sido operada e convalescesse, já decerto me teria mandado um telegrama.
É pois forçoso convencer-me que a minha pobre Suze—«era uma vez»...
Repito alto p'ra mim mesmo: está morta, está morta a Suze! Logo que o disse alto, todo o meu temperamento de actor o acreditou, e em todo o meu ser, essa auto-sugestão ressoou em dobres, agudamente, por essa rapariga de vinte e três anos com quem vivi dois meses.
A morta (é certo, é positivo que morreu) era alta e magra.
Aqui mesmo, no meu quarto, onde certa noite ela tomou chá entre os meus livros, a vejo atirar o chapeu de rendas caras, em que havia heráldicas tulipas, acender com um gesto fino um dos Laferme, correr a mão na testa com o gesto da Duse nas catastrofes supremas, e dar-me fumo e destino e sonho. Aqui mesmo.
Naquele espelho prolongou com um traço{123} de crayon os olhos vagos, ali palpou as molas do divan, e no toilette atou horas depois, im memoriam, as fitas de sêda azul que lhe prendiam a camisa nas espaduas...