Parou. Eu recebi num beijo o fumo do Laferme, e a Suze concluiu:

—Que importa isto! É um detalhe...

As outras, as vulgares, bestializavam-se; passada a crise horrível de adaptação, vendiam beijos, como um mercieiro vende arroz, um advogado eloquência, ou um diplomata uma colonia. A Suze não; era esculptada em lava: era alguêm. Prostituta ou esposa, seria sempre infeliz, seria sempre ela, seria sempre só. Pobre Suze!

Alma apolínea, foi esboteada por fadistas que teem o nome em crónicas heróicas; sofreu-lhes, em noites de orgia besta, o suor e o vomito; e com uma clarividência trágica, presentiu muita vez os haustos da manhã subindo, a olhar com a pele arrepiada a máscara boçal de algum cliente.{140}

Teve amantes ricos, equipagens, e as suas melhores horas eram quando sozinha, abandonada a si mesma, ouvia numa noite de inverno, como uma confidência, o crepitar da lenha num fogão...

Teve paixões sensuais que a torturaram, foi roubada impunemente muitas vezes, e uma noite em Moscou—cahia neve—velando uma companheira moribunda, sem nada p'ra empenhar e sem recursos, foi pôr no prego, jóia grotesquíssima!—a propria dentadura da doente que. Deus louvado, era montada em oiro... Assim puderam comer aquela noite.

É de estoirar a rir—não lhes parece?...

Sabia de cor tôda a Comédia humana: viveu tôda a comédia humana. Pobre Suze!

Tu ao menos, não precisaste de ser louca p'ra sêres santa: ergueste-te sempre corajosa e simples, sem um abatimento ou uma queixa; e através de insultos e torpezas,{141} conservaste puríssima, apolínea, uma alma aberta ao sol como uma rosa!

Quantas vezes, calçada de verniz, tiveste fome, e com teu passo elástico de espectro, nem um só Cireneu topaste que ao estender-te a mão, te não pedisse gôzo...