Tu, Suze, sabias bem tôda a piedade humana e como ela é antes... e depois. Se algum principe Nekhuladoff tentasse redimir-te, como a tua palidez riria de alto ao pobre místico, a êle que te falava de perdão e arrependimento, quando os teus olhos de névoa viam claro, com um determinismo lúcido, fatal, que a tua vida era assim, irremediável, e nem tinhas ódios nem sêde de justiça, pois bem sabias que é inútil tê-la p'ra morrer à sêde...

Conheceste príncipes, é certo, mas nem um místico: só mais ou menos imbecis... Não te fossem falar do ceu,—a ti que tantos viras de platina na bôca de gozadores com avarias.

Por isso não tiveste gritos, não te estorceste: nem sei mesmo se choraste.{142}

Posta em teatro, não farias uivar as galerias nessa paródia de circo tão grotesca que é um quinto acto p'ra burgueses e povinho; eras p'ròs raros apenas como o matoidismo poético da minha terra. Na tua voz de fôlha seca, dizias de todo o teu calvário apenas isto: é um detalhe.

Mas para mim, Suze, o teu corpo serpertino, que ora começa a decompor-se, o teu génio a fagulhar num incêndio murmuro de elitros e, sobretudo, o supremo encanto da tua dor heróica, sem desfalências e sem queixas, para sempre ficarão no meu espírito, como qualquer coisa de belo, de perfeito, pois que correste os bastidores da vida, todo o egoísmo, tôda a lama, tôda a infâmia, em vítima serena—tão serena como essas que na Grécia iam hirtas de dor entre colunas...

E amaste sempre o sol! E amaste sempre o sol!

Deixa-me lembrar-te: é a última carta que te escrevo. Desta vez serei sincero,{143} porque estás morta, porque a não lerás...

Espera!... As nossas tardes no Rio Doce, em Leça... Os olhos dos mortos ainda reflectem, ainda vêem... Pudesse eu ir arrancar-tos, trazê-los nas mãos com cautela, como dois pássaros mortos, e dar-lhes ainda a beber, pobrezinhos!—sol, mar, areias ruivas, aguas correntes...

Pudesse eu beijar-te os olhos mortos!

Chamava-se Sol o nosso barco. Eu levava-o à vara, lentamente. Tiravas o chapéu, estendias-te à pôpa e nem falavas. De quando em quando, ia colar à tua a minha bôca: beijava-te as pálpebras de manso.