Parava sob um chorão, à sombra dos seus cabelos verdes. Cingia-te. Poisava a cabeça nos teus seios, que eram lindos, tersos como de virgem. Todo o teu corpo desfalecia, se humilhava no teu vestido de sêda crua como o duma criança adormecida... E era então que eu sentia, que eu palpava, que eu vivia a vida divina do silêncio.{144}
Era mais vago o marulhar da ramaria e fazia mais silêncio, como faz mais silêncio, à noite, o acorde das ondas numa praia...
Sentia-se cair silêncio como se sente cair névoa.
As nossas bôcas colavam-se num beijo húmido, calado, duma volúpia tristíssima, confrangida. Era como uma despedida sem palavras, muito lenta, de dois suicidas...
Eu não te via os olhos, mas adivinhava-os: estavam maiores, mais nevoentos, como janelas deitando p'rò silencio que se cavava em torno, fazendo leito ao nosso pensamento pelo espaço...
E confusamente sentíamos que o tempo passava, passava sempre entre os nossos corpos enlaçados....
Por fim—era à bôca da noite—voltávamos.
Devagarinho, dizias tu, devagarinho...
Eu ia levando o Sol na agua mortuária, e à nossa passagem, partiam sempre, iam partindo, pássaros mal adormecidos nos salgueirais das margens, reflectiam-se no rio{145} em fugas de asas, e era tudo mais triste como se êsse vôo fôsse o adeus de tudo...
Quantas vezes te olhei com os olhos rasos! Disfarçava, não queria nunca que mos visses. E de repente, apertava-te os braços, sacudia-te p'ra me aturdir, p'ra espancar a emoção que me afogava numa maré de lágrimas reprêsas.