Queria gritar, queria chamar-te meu amor e... odiava-te. Queria beijar-te as mãos, vestir-te de meiguice, e dizer-te a ância, o sonho doido de viver contigo sem palavras—como as estátuas dos túmulos nas criptas...
Queria bater-te, cuspir-te, demolir-te, como faz um tufão a uma árvore sozinha, e a puxar-te os cabelos de creança, ir gritando, gritando sempre: prostituta... prostituta...
Hoje tenho remorsos. Mas tu compreendes, tu bem sabes: era quási loucura.
Não podia perdoar à tua graça ter-se deixado poluir, não podia perdoar ao teu génio a tua derrota, não podia perdoar-te, Suze, que fosses vítima.{146}
Ah! ter piedade, ter piedade... Mas isso é pouco, muito pouco: é um sentimento consolador só para eunucos. E eu queria amar-te ao sol, Suze, olhando as árvores irmãmente, todo o nosso desejo a escorrer luz...
A noite vinha. Seguíamos enlaçados, e eu cansava-me no esfôrço imenso de te não magoar... Tu bem sabias, tu bem sabias... Segundo a segundo, o meu martírio pesava o tempo como se uns ponteiros de relógio me ferissem os nervos... Tu bem sabias. Tanto sabias, que por fim me beijavas na testa, quási maternal, e a tua voz de fôlha seca rangia êste refrem de outono: «Isso passa. E um instante, é um detalhe.
Minha pobre Suze, como tu eras justa, como tu adivinhavas, bruxa de vinte ânos, p'ralêm da hora que passa, o nada que virá.
A tua desgraça era suprema, porque tu eras aquela que não se ilude nunca.
Ainda assim, penso comigo: quem sabe! quem sabe! Se ela me visse como eu sou,{147} se eu não fôsse com ela sempre actor, se eu não fôsse o ser falso, o clown scéptico mascarrando com riso o sentimento; se eu não me amordaçasse a cada instante, e tivesse podido ser eu mesmo... Se visses, Suze, a creatura que eu escondo; se soubesses que afinal eu sou bem simples e como eu amo a vida tôda de mãos postas...
Se em vez de analisar, eu me entregasse; se eu esquecesse os livros e os outros e te falasse tão naturalmente como o meu sangue fala nas artérias... Quem sabe!... Talvez, Suze, se eu fôsse o que não viste, o que te fala agora... Porque eu lembro-me, eu lembro-me. Duas horas houve que nós vivemos um no outro, fora do espaço, fora do tempo... Tu bem sabes, tu lembras-te.