Era madrugada. Estávamos deitados.
Todo o meu ser vivia de ti, morria em ti. O nosso desejo ardera, estava morto. Que fadiga a nossa, que fadiga!...
A rua despertava, ouviam-se pregões, o sol luzia nas frinchas: eu tinha a cabeça{148} contra o teu peito, perdidamente, como contra a esperança, como contra o futuro...
Embebia-me em ti, aspirava o teu corpo, a tua carne, a sua tristeza imensa, a sua saudade de tudo o que não teve, de tudo o que não foi... e juro—que em nenhum jardim, em nenhuma aurora, uma flôr com orvalho me ungiu assim de sonho, me fêz assim vibrar no impossível dum amor perfeito.
Levantámo-nos, saímos, e logo a rua, os outros, a vida dos outros, se apossou de mim, me perverteu, me obrigou a mentir, a torcer-me... e eu ri, eu ri imbecilmente, de nós, da nossa vida, e dessas horas em que auscultei contra o teu peito—o impossível de um sonho sempre erguido!...
Pois se esta noite mesmo, ao começar a escrever, ao pensar em ti—na tua morte, Suze!—eu fui palhaço, eu quebrei em esgares a emoção, e mimei um ar gelado, irónico, impossível, quando queria chorar perdidamente, quando queria beijar os pés ao teu cadáver... É que tinha medo, um medo{149} horrivel de que os outros me vissem, porque p'ra êles é uma torpeza amar-te assim...
Eu podia dormir contigo, dar-te dinheiro... só não podia amar-te. P'ra todos os crimes há uma indulgência feita de cumplicidade, menos p'ra um crime assim: não tem remissão: é imoral e é grotesco.
É preciso que a dor me abale todo, me fite bem de frente, e me hipnotize o seu olhar de chama, p'ra eu poder dizer como te amava, como te amo.
Perdoa, perdoa. Aqui me tens aos pés do teu cadáver.
Tôda a vida morreu p'ra mim: a seiva gelou nas veias das árvores; o mar que eu amei tanto, não me importa.