A vida agora é êste horror: uma sala de morgue, mesas ovais de mármore, cadáveres sem nome, já esquecidos, e entre êles, Suze, o teu cadáver.
Como irás tu p'rà cova? Quem te vestiu?... Foram mãos sem carinho, mercenárias.
Vejo-te, digo-te adeus, Suze... O teu cadáver{150} transe, empedra de martírio. Pareces mais alta, mais comprida. Não te souberam pentear; deixaram-te o cabelo em desalinho e, não sei porquê, está mais claro, de uma sêda mais pura, mais de infância...
Tens um vestido preto (com que me foste esperar: há quanto tempo?...) sapatos de verniz, ponteagudos... fivelas de oiro... meias de sêda nos teus artelhos finos de cegonha.
Cruzaram-te de certo as mãos no peito, mas escorregaram, descaíram, e amarelas, outonais, dizem ainda: «é um detalhe apenas, um detalhe...»
E o que mais me entristece é que tens frio: as mãos da podridão vão-te gelando. Oh! As tuas noites na cova, Suze!...
Abriram-te o ventre no hospital. Suturaram-to àpressa, sem cuidado. Se te tirassem os nervos... Bem sei que é doido, mas que querem?... Ficava assim mais socegado.
É amanhã que te enterram?... Hoje mesmo? Deve ser quási dia, minha Suze.{151}
Deixa beijar-te as mãos geladas, de mansinho, enquanto falo... Assim. A minha febre aquece-tas: verás...
Não te descerro as pálpebras. P'ra quê? Está ainda escuro.