Tens saudades do sol, minha pobrinha?... A última vez, quando almoçámos na praia, ao pé de Leça, olhaste-o tanto que logo pensei que ias morrer... Todo o teu corpo diz adeus ao sol. A mais ninguêm.

Família?... Nunca quis saber de ti: contaste-mo sem queixa, simplesmente. Disseste como sempre: é um detalhe...

Que fica de ti, Suze? A memória da pele é passageira, e é muito incerto que a tua graça vá dourar uma saudade.

Ninguêm irá ao teu enterro, e ainda bem!

Por tua causa, ninguêm se irritará jantando à pressa; ninguêm irá, de sobrecasaca e mau humor, fazer-te o necrológio ao cemitério.

Não terás latim grunhido por um clérigo,{152} nem essa coisa triste e tão grotesca—um círio laico em ar solemne, com fungagá e arenga humanitária.

Vais p'rà cova só, como viveste; e depois de te teres dado a tantos homens, vai parecer-te natural que te amem vermes... Até na morte és discreta, minha Suze, pois nem sequer virás numa gazeta.

Foste perfeita: és perfeita. Amaste a beleza sempre com loucura: nas nuvens, nos maquereaux, nas pupilas das jóias, nos crepúsculos...

Ensinaste-me o desprêso sem palavras, a dor sem confidência, feita orgulho. Deixa beijar-te ainda as mãos geladas.

Quem mas dera guardar p'ra sempre, em mármore; suspendê-las como um ex-voto à cabeceira, as tuas pobres mãos tão humilhadas, esfolhando eternamente sôbre a vida, o perdão dos que a entendem:—o desprêzo.