É o tipo mais estranho que eu conheço. Que anos terá? Deve ter trinta ou mais. Magríssimo, êsse lúgubre cabide que é o seu corpo, traz enfiadas roupas de outros, muito largas: sobrecasacas, fraks, vestes ricas, esverdeando, já em plena decomposição, e mais vexadas nesse esqueleto curvo de pedinte que numa loja de adelo ou num palhaço.

Decerto o conhecem. Decerto já, cerimonioso e gago, lhes pediu esmola. É um pobre diabo e é doido: o Veiga.

Caricatura das ruas, conselheiral e poética, encontro-o sempre com vagar e ritmo,{158} num abandono corcova de vadio, que daria dandismo a um diplomata.

Pois bem: é só mendigo. Mas não como nós todos, a uma esquina de rua ou a uma porta banal de ministério, a pedir emprêgo ou noiva rica, dez reis ou participação num monopólio. Não é assim: é outro género, é paradoxal, é único!

Pede para comer, mas não come como nós todos: por comer. É p'ra viver a Vida, a Vida toda! Esperem um instantinho: é extraordinário.

Deixem-me antes contar-lhes como êle era.

O Veiga, quando eu dei por êle, era empregado num cartório. Às dez, todas as manhãs, enfiava com unção manga de alpaca. Assim ficava até às três, todo curvado, cumprindo religiosamente, riscando o papel selado com uma letra estilada e redondinha, tão correcta e tão banal que faria o desespêro de um grafólogo.

Tipo neutro, nem vou lá, nem faço minga, gozava em todo o tribunal uma simpatia{159} benevolente e desdenhosa. O escrivão, os colegas diziam dêle: é um pobre diabo.

Era bem um pobre diabo.

Sofriam os seus nervos destrambilhados com o drama quotidiano do tribunal, êsse espectáculo de miséria em carne viva, explorada pelos outros que viam nela a melhor posta, extra-oficial e lucrativa, o verdadeiro emprêgo.