O Veiga, coitado, não explorava: sofria. Às vezes, copiando interrogatórios, mandados de captura ou de penhora, tinha os olhos rasos, e umas rovoltas frustes de nervoso crispavam-lhe as mãos magras na caneta, perturbando em trémulos sem arte o seu lindo e banalíssimo cursivo.

Em muitas dessas prosas rígidas, onde se amortalha em formulas destinos, ia o gráfico da sua emoção romantisada, o patético mapa dos seus nervos.

No cartório, melhor do que nos livros, sem gangas literárias, sem imagens, o Veiga ouviu a maré rouca da desgraça: a sua caneta atenta correu-lhe os sete círculos fatídicos;{160} soube-a de cor, como um folhetim vivo, gritado aos seus ouvidos, que êle recolhia em papel selado a 20$000 réis por mês.

Naquelas laudas oficiais folheava a vida social como num índice; lia como numa partitura, tôda a harmonia humana. E que harmonia, Santo Deus!

Tinha vontade de fugir, de tapar os ouvidos, de se meter sòzinho num buraco. Ali roçou, mais encolhido, aspirações, quimeras ulceradas. Como era um fraco, de uma nervosidade romanesca, sentiu terror: tinha vontade de chorar. Não embotava como os outros num cinismo comodista: cada vez destrambilhava mais.

Claro que não podia ter amigos: era ridículo, era diferente, era um sòzinho. Riam-se dêle com benevolência, estendiam-lhe a mão com um ar de obséquio.

Quando se afastava de algum grupo, sob as arcadas conventuais do tribunal, ia aflito, a querer sumir-se, com vontade de morrer, pois bem sabia que se riam dêle, das palhetas desafinadas, da gaguez.{161}

Vivia com a mãe e sem mais parentes. Mal chegava a casa, ia esquecer, queimar no braseiro interior essas misérias, e com a luz de tão má lenha, fazia nimbos p'ro seu sonho.

Com que sonhava êle? Com o Amor.

Vira-o nu, reduzido a autos; ouviu-o debater-se bem imundo na camisa-de-fôrças que é a Lei; acotovelou-o no cartório, em todas as formas, da prostituta de viela ao adultério rico; e assim mesmo, persistiu em amar imbecilmente, convencido,—o desgraçado! de não sei que sarcástico destino que o talhara p'ra amoroso, com uma carcassa humilhante de fantoche.