Caminhava, alheado, fluctuando, sem olhar, sem perceber aspectos, fumando o seu monólogo{164} de sonho, sentindo com prazer que a noite vinha.

Parou por fim, cravando olhos de febre nessa varanda do terceiro andar.

Esperou... esperou e ela não vinha!... Há quanto tempo olhava êle a varanda? Há cinco minutos talvez, talvez há uma hora. Perdera a noção do tempo. Não sabia. Súbito moveu-se o transparente... Era ela. Olhou um instante, viu-o, e retirou depois de um modo brusco.

«Coitadinha! Não pode vir agora. Talvez gente de fora... Esperarei»—pensava o Veiga com as pernas a tremer. E esperou, esperou, numa agonia.

Por fim deram dez horas muito fortes, badalando-lhe dentro da cabeça. Ergueu os olhos. Não podia mais. Batia os vidros um luar de opalas fluidas, e ela apareceu na claridade, muito branca, ao mesmo tempo que lhe deu um encontrão um caixeiro ajanotado que passava.

«Foi decerto sem querer»,—pensou o Veiga, mas viu-o logo voltar-se a provoca-lo.{165}

«Que tem êle comigo? Que lhe fiz?» E interrogava-se assim ingenuamente, quando o viu fazer sinais p'rò andar dela e opontá-lo a rir, com um ar de troça.

Cessou em torno dêle tôda a vida. Deixou de ver, deixou de ouvir, ficou imóvel, numa aura de vertigem que o lambia, cara p'rò alto, lívido, inconsciente. O outro então aproximou-se dêle, fisgou-o pela gola, muito têso, e com bruscos sacões foi-lhe dizendo:

—Que faz você alí, seu grande lorpa? Não percebeu ainda que o troçaram? As suas cartas trago-as eu aqui, p'ràs ler aos meus amigos, p'ra me rir. Você sempre é um ponto de primeira... Você ouve ou não ouve?...

E deu-lhe um sacão último mais forte.