—Não há que ver. É mouco como um muro.

O Veiga olhou-o atónito, sem gestos. Não teve uma palavra. Empedrou todo. Vergava de fraqueza, mal ouvia, e nos olhos de febre, muito abertos, um desencanto imenso,{166} emparvecido, um vazio de assombro, semi-louco... Estava em frente do outro sem o ver. Todo o seu corpo magro de humilhado corcovava ainda mais de decepção, como se o esfrangalhasse uma rajada. Parecia esperar uns braços p'ra cair. O outro olhou-o num desprêzo besta, e rematou com o punho em murro junto dêle:

—Agora rode! Senão parto-lhe a cara.

O Veiga nem buliu. Ficou inerte.

—Não ouviu, seu burro, não ouviu?

E como êle não tinha um movimento, deu-lhe uma bofetada que o virou. Depois, gozando muito o seu triunfo, encheu-lhe de pontapés o corpo todo, teve-o nas patas ennovelado como um trapo, até que farto, resolveu larga-lo, soltando-lhe magnânimo o perdão:

—Já basta. Tomou p'rò seu tabaco...

Havia um luar de espasmo, amorosissímo, e o imbecil, trepando a rua derreado, abafava os soluços contra o lenço, cerrava a bôca seca como em trismus, e só tinha uma ância a empurra-lo: ir despertar a{167} mãe na alcova escura para chorar baixinho junto dela, como em petiz quando o troçavam no colegio.

Só isto poderia consola-lo: ouvir-lhe a voz, palavras de ternura, sentir-lhe as mãos rugosas nos cabelos...

Fêz um último esfôrço, dominou-se. Foi em bicos de pés até ao quarto, e caíu de bruços sôbre a cama, como se fôsse a cova, p'ra acabar, na humilhação suprema de sovado diante do seu ídolo tão loiro.