Crispou no travesseiro mãos de náufrago, como na carne de alguêm que o acolhesse, um amigo pr'a ouvir-lhe a confidência; disse coisas baixinho, o nome dela, chorou horas e horas, gemeu alto, diluindo nas lágrimas a angústia, sentindo contra o corpo extenuado a moleza da moinha a consolá-lo.

Por vezes chorou quási com prazer, desdobrou-se, assistiu ao seu martírio, como nas melhores noites de teatro, quando ouvia os quintos actos soluçantes, apertado num logar das galerias.{168}

Esteve assim de bruços muito tempo, amolentado, estúpido, pastoso. Não podia dormir: era impossível. E com um grande esfôrço, quis erguer-se. Mas doeram-lhe então as pisaduras, e numa raiva fruste de impotente, feriu a paz do quarto com patadas, com rangidos de dentes e com murros, torcendo-se num ódio corrosivo, menos contra o caixeiro que o tosara, que contra êle, Veiga, gago e reles, sempre curvado em cumprimentos torpes, entre troças e adeuses de desprêzo, sem coragem pr'a um murro ou uma insolência.

Sentiu-se trapo, lôdo, coisa imunda. Teve mesmo prazer em deprimir-se; rolou-se na humilhação quási com gôzo, como outros na glória ou na luxúria, e arrancou do seu misérrimo grotesco, da sua covardia tão cuspida, êste consôlo cristão para aureolar-se:

—Sou uma vítima, uma vítima do Amor e do Destino!

Tinha ainda na cara as bofetadas, ouvia ainda a voz boçal do caixeirola: «Já basta. Tomou p'rò seu tabaco»; mas a única realidade{169} bem tangível, ao sentir-se chorar, assim, de bruços, de côco para a nuca e sobretudo, era esta coisa mágica e inefável:—«Sou uma vítima do Amor, tenho romance!» E com a cara a arder, era um herói.

Já quási madrugada, adormeceu. Acordou-o o sol vindo até êle, e ia voltar-se contra a luz covardemente, p'ra se escoar no sono, p'ra esquecer, quando ouviu passos da mãe que vinha entrando.

Embrulhou-se nos cobertores num gesto brusco, para que ela o não visse por despir; encolheu-se na roupa o mais que pôde, mas ainda assim ficou com os pés de fora, com as botas de elástico enlameadas e o côco amolgado em travesseira.

A mãe entrou no quarto devagar, foi abrir as janelas de mansinho, supondo-o a dormir, bem sossegado. Quando o viu vestido sôbre a cama, com uma palidez desfeita e olheiras fundas, correu p'ra êle, pôs-lhe a mão na testa, e perguntou branca de susto, a tremer tôda:{170}

—Que tens tu, meu filho? Estás doente? Porque dormiste assim todo vestido?!...